ESQUINA CULTURAL
O OUTONO E AS VIROSES

José Medeiros*

Há perfumes que lembram momentos românticos e sentimentos amorosos; há músicas que trazem recordações de antigas alegrias e velhas amizades. Objetos, palavras, gestos, podem associar-se, sentimentalmente, a ocasiões especiais, gravadas para sempre na memória afetiva. Músicas e livros são duas predileções entrelaçadas no amor que dedico à arte e à cultura. Nos últimos anos, estive em três Bienais Internacionais do Livro. Em 2003, no transporte que nos conduzia à Bienal, ouvi, com atenção, a música "Águas de Março", de Tom Jobim, que havia vencido a eleição de "A melhor música brasileira de todos os tempos". Uma vitória, com muitos merecimentos, diga-se de passagem. Recentemente, ouvi essa jóia musical e isso me fez recordar a Bienal.

Vocês lembram de "Águas de Março"? Vejamos alguns versos: "É pau, é pedra, / é o fim do caminho / É um resto de toco, / é um pouco sozinho / É um caco de vidro, / é a vida, é o sol / É a noite, é a morte, / é um laço, é o anzol / É uma ave no céu, / é uma ave no chão / É um regato, / é uma fonte, / é um pedaço de pão...!!!

Jorge Luiz Borges, um escritor argentino de muito sucesso, amante de livros e de música, levantou uma questão que ele mesmo tentou responder: "Que diferença pode haver entre um livro, um CD de boa música e um jornal?" E veio a explicação: "A diferença é que um jornal é lido e substituído no dia seguinte; a música, vai-se guardando nas dobras do pensamento e do sentimento; o bom livro é lido para eternizar-se na memória".

Pesquisas recentes revelam que a venda de CD's tem evolução mais expressiva que a dos livros. De acordo com as estatísticas oficiais, o número de leitores, no Brasil, oscila num universo de 30 milhões. A meta pleiteada nas bienais é a de conseguir que 20% da população compre e leia, pelo menos, um livro a cada ano. As bienais, vitrais da cultura e da educação, tentam incentivar o hábito da leitura, principalmente, entre crianças, adolescentes e jovens.

No meu tempo de estudante, um companheiro de estudos (de boa situação econômica), sonhava ter uma grande biblioteca. Comprava todos os livros que desejava, embora não os lesse. Meu Deus, que graça alcancei, quando me autorizou a abrir e ler tantos livros quanto desejasse. O que me faltou, infelizmente, foi mais tempo para aproveitar essa preciosa oportunidade.

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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