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O trabalho da pata
Costumo dizer que aprendo muito com os meus filhos,
principalmente com os pequenos. Eles me impressionam pela
capacidade de perdoar. Diferente dos mais velhos, eles não
guardam rancor e dificilmente reclamam no dia seguinte de uma
bronca dada no dia anterior, embora, desde cedo já dêem sinais
de impaciência com a ausência dos pais no dia a dia da casa.
Eles não entendem bem por que trabalhamos tanto, por isso, ouço
deles essa reclamação: “ou painho, por que você só trabalha,
trabalha...”. Tenho respondido sempre que trabalho muito, porque
não desejo que falte nada para eles, e sempre procuro associar à
minha resposta uma necessidade concreta da família, como as
despesas caseiras. Junto a essa informação a pedagogia de também
dizer para eles que, se pouparem nos consumos fixos da casa,
teremos certamente um pouco de sobra para o lazer e menos
trabalho.
Na semana passada recebemos a visita de uma jovem família.
Conhecemos Cristina (hoje médica) há mais de 25 anos, quando
seus pais residiam em Maceió. Hoje casada e com dois filhos,
aproveitou uma semana de férias para nos visitar, tendo antes
passado um final de semana num Hotel Fazenda. Contou-nos a
seguinte história: “durante um passeio pelo Hotel (que tem um
zoológico com alguns animais domésticos criados livremente)
observou uma pata com os seus patinhos fazendo fila em busca de
alimentos. Aproveitou a oportunidade para dar uma explicação aos
filhos menores sobre esse tipo de convivência. Falou, então, que
os patinhos sempre acompanham a sua “mãe” por todos os lugares,
ela não necessita gritar para que os “filhinhos” sejam
obedientes, e coisa e tal. Um dos filhos, que ouvia a tudo
atentamente, resolveu fazer uma cruel pergunta: “mãe, e a pata
também trabalha?”. Em outras palavras: “ela também sai todos os
dias pela manhã e só volta à noite, por isso, naquele dia,
supria essa necessidade levando-os para passear ?”.
No dia de ir embora, percebi que a Cristina havia aprendido
muito com essa história. Quando Guga lhe perguntou, por que
teriam que deixar a Barra de São Miguel (interrompendo umas
férias maravilhosas) retornando para Recife, ela parou um pouco
para pensar e respondeu: “porque na segunda-feira você tem
escola”. Numa tentativa de esconder que, na verdade, a
necessidade de retornar era mesmo da “pata trabalhadora”.
Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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