ESQUINA CULTURAL

O que vamos dizer para eles?

Dias atrás encontrei o João Fireman durante um evento de cardiologia. Quando nos abraçávamos ele me revelou que sempre lê o que escrevo nas quintas-feiras e me fez uma provocação assim: “Marco, o que vamos um dia responder aos nossos filhos?”

De início não entendi bem o sentido da pergunta, mas no desenvolvimento de nossa conversa ele deu a entender que estava desiludido com a política e com os fatos recentes. Lembrou então que já estamos completando um ano das denúncias do mensalão, até agora nada de concreto havia sido apurado e crescia a certeza de que tudo havia prosperado no esquecimento e na impunidade. Os milhões (ou bilhões) de reais roubados da Nação não foram localizados, nada devolvido, nenhum “cidadão” preso (nem mesmo indiciado), e o pior de tudo é que a própria população também já nem se interessa mais por esse assunto, especialmente em clima de Copa do Mundo.

Ao nos despedirmos prometi a ele que ia pensar no assunto e logo lhe responderia. Ele, na saída, ainda insistiu dizendo: “olha, Marco, tudo isso irá ficar registrado na história e certamente qualquer dia ouviremos de nossos filhos perguntas como essas: o que é mensalão? O que aconteceu com os envolvidos nesse escândalo? Essa história de mensalão foi bom ou ruim para o Brasil?”.

Olha, João, aprendi que para as crianças não devemos nunca mentir (nem de brincadeira). Não tenho muita certeza de que eles um dia se interessarão por esse assunto, mas se isso acontecer poderemos dizer exatamente a verdade: “olha, meus filhos, o mensalão foi um movimento de ‘forças guerrilheiras’ de esquerda, chefiada por ‘ilustres’ brasileiros que já comandavam o país, mas que sentiram a necessidade de arrecadar fundos (de sacolas, cuecas, fundos “perdidos”) para garantir a manutenção no poder de um grupo político que lhes representava. Ao ser descoberto assustou de início a todos, houve muita indignação, a imprensa toda se mobilizou, provas concretas das irregularidades foram descobertas, houve até uma CPI com transmissão direta para todo o país, e, no final, como os recursos que foram roubados por essa enorme quadrilha não se enquadrava exatamente em recebimentos mensais – alguns eram semanais, outros bimensais e mesmo semestrais, a história do mensalão não prosperou. Houve apenas uma maquiagem na chefia da quadrilha, alguns ‘notáveis’ foram afastados do comando, por algum tempo, mas logo depois retornaram à cena”.

Sabe mesmo do que tenho receio? É de que eles nos perguntem o que foi que nós (como sociedade organizada) fizemos para evitar esse desfecho.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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