ESQUINA CULTURAL

Sabem o que matou meu amigo?

Semana passada, dividi com os meus leitores a tristeza de perder um amigo. Muitas pessoas, que nem o conheceram, manifestaram solidariedade dizendo que pela forma como o apresentei (depois de morto) deve ter sido mesmo uma pessoa muito importante.

Neste último final de semana estive reunido com um colega que chegava de Aracajú e ele me trouxe a informação concreta sobre a causa da morte de Clovis. “Adivinhe do que ele morreu?” Ele me questionou. Arrisquei algumas hipóteses diagnósticas, baseado nas informações que tive em seu sepultamento, mas não cheguei nem perto. Ele, então, me participou a informação que havia recebido no momento em que embarcava para Porto de Galinhas (onde nos encontramos): “ele morreu de dengue hemorrágica”.

Assistindo a minha conversa com este amigo de Aracajú estava outro colega de Maceió, que lembrou que quando ainda estudante de medicina (há pelo menos 20 anos) ouviu de um renomado sanitarista de nosso estado, o Dr. Geraldo Vergetti, que no futuro nós deveríamos nos defrontar com o recrudescimento de muitas doenças típicas de países subdesenvolvidos, como dengue e febre amarela. Um dos motivos apontados foi a desativação e o esvaziamento progressivo de órgãos importantes, como a SUCAM, por governos passados. A previsão, de quem conhecia o que estava afirmando, não foi considerada durante décadas, e aí está o resultado: embora, diante de tantos avanços tecnológicos e de tantas possibilidades diagnósticas, velhas doenças provocadas por conhecidos vetores voltam a ameaçar a saúde da população e a ceifar vidas.
 
É muito duro saber que uma pessoa tão querida tombou por conta de um simples mosquito. Não é uma coisa concebível que em pleno século 21 ainda se morra de uma doença provocada pelo descaso das autoridades que deviam cuidar da Saúde no Brasil, mas que na verdade estão mais preocupadas nas “gastanças” com cartões corporativos, nas licitações fraudulentas e no roubo do dinheiro público de forma descarada, como assistimos na nossa própria terra.

Percebo, nos tímidos esforços despendidos pelos órgãos responsáveis, uma motivação para atribuir a culpa à sociedade. Não posso desconhecer que o combate a essas endemias passa por programas de conscientização e de educação, mas existem equívocos nessa abordagem. Eu mesmo já recebi livros e CD’s com instruções sobre o combate ao vetor, que teve como destino o lixo (e deve ter custado muito caro). Entretanto, medidas efetivas como o combate aos focos dos mosquitos nos terrenos baldios apenas são realizadas durante eventuais campanhas. Por enquanto, vamos pedir a Deus que nos livre do mosquito da dengue, porque, se depender de providências oficiais, ainda vamos “chorar” muitas mortes
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Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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