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Por quem choram os olímpicos?
Tirando a tristeza de ter, mais uma vez, perdido para os
argentinos, esse é um tempo oportuno para ricas e felizes
reflexões. Ganhar medalhas representa a glória de uma conquista
que distingue pessoas consideradas especialíssimas, dotadas de
uma força (ou esforço) quase sobrenatural, do resto da população
mundial. Algumas são tão especiais que superam, dia após dia,
marcas consideradas inatingíveis, numa demonstração de
superação, provando que não há limites para esforços obstinados.
O Brasil, nesta olimpíada, não vem nos oferecendo muitas
alegrias porque vem fracassando em algumas atividades nas quais
entramos nas disputas com alta chance de medalhas. No entanto,
alguns acontecimentos merecem ser comemorados.
Um exemplo do que estou falando é a atuação brasileira em alguns
esportes de natureza coletiva. É como se, para nós brasileiros,
atuar em conjunto representasse somar forças e não oferecer
espaço a destaques individuais (no futebol masculino, o
coletivismo foi esmagado pelo individualismo de alguns jogadores
considerados super atletas).
O outro fato digno de destaque é a manifestação de tristeza e
decepção de alguns atletas, cuja vitória escapuliu na última
hora pelo nervosismo ou mesmo pela falta de equilíbrio
emocional. Um exemplo típico foi o choro de Diego Hipólito ao
fracassar em seu último exercício no solo. Ao ser entrevistado,
momentos depois, ele chorou amargamente e pediu desculpas ao
povo brasileiro pelo seu insucesso. Essa é a dignidade do choro
olímpico. A sua derrota é indiscutivelmente pessoal, mas a sua
tristeza é coletiva. O sentimento que ele nos passou é de que
desejava o pódio para todos nós, e sua tristeza não tem nada a
ver com a sua derrota pessoal.
Que choro bonito e cívico, numa época de tanto cinismo. Muitos
que deveriam chorar de vergonha e se desculpar diante da nação
brasileira pelas suas artimanhas, se acobertam nas prerrogativas
da proteção jurídica (até de não se expressar), para sorrir
diante de nós como se desejassem nos afrontar com o escárnio e a
certeza da impunidade. Na Olimpíada da vida deveriam apenas ter
dois tipos de choro: o choro do Diego por frustrar uma nação, e
o choro do Cielo por alegrar-nos com uma conquista memorável.
Apesar de representarem naturezas diferentes (fracasso e
vitória), ambos são, na mesma intensidade, choros dignos.
Por quem choram os olímpicos? Por cada um de nós que transforma
as suas conquistas na realização de um desejo coletivo. Mas, no
país do futebol, há um “choro” coletivo que amargamos, e que não
desejamos nem que seja chorado, o de ter sido esmagado pelos
argentinos: “não chorem por nós argentinos”.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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