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Um novo olhar sobre
os valores
Logo que retornei de
férias escrevi sobre a reforma que fiz em meu consultório e
sobre a retirada dos quadros com os diplomas conquistados na
minha vida profissional. Em seu lugar mandei colocar uma foto
gigante, onde estou junto à minha mulher e meus dez filhos.
Contei que, depois de uma avaliação cuidadosa, havia percebido
que a esta altura da vida o que me restava como algo de valor
era mesmo a minha família.
De início, recebi reclamação das noras e genros por não ter
colocado, também na mesma foto, os netos. Respondi-lhes dizendo
que hoje tenho três, e amanhã posso ter dez. Nesse caso, teria
que ir atualizando anualmente a foto, correndo o risco de
aparecer nela cada vez mais velho.
Senti também um olhar de tristeza de alguns amigos que fomos
conquistando durante a nossa vida. De um, até ouvi um comentário
(denotando frustração) de que: “ter amigo é importante, mas
família de fato é que é um valor perene”.
No entanto, o que mais me incomodava era essa exclamação: “que
bela família doutor!”. Todas às vezes (e, várias vezes por dia)
essa frase foi sendo repetida. De início, eu respondia sorrindo:
“é mesmo, que linda família eu possuo”.
Depois que as pessoas saiam da sala, eu ficava olhando para a
foto e refletindo que de fato possuo dez lindos filhos e uma
maravilhosa e valente mulher. Amo e compreendo cada um deles de
modo especial. Também não tenho nenhuma dúvida de que por eles
sou amado. Cada filho para mim representa um sentido novo para
seguir trabalhando e vivendo. Cada um isoladamente consegue
preencher essa minha necessidade de ser pai, e gratifica com
gestos e atitudes o meu esforço de ter partilhado a paternidade
com tantos. Essa sensação de plenitude eu chamo de parcial
felicidade. Quase realização.
No entanto, ser família exige outros predicados. É um
compromisso muito mais sério. Ser família é nunca ter
desconfiança da necessidade de estar presente para ver crescer a
união e a solidariedade entre seus componentes. Na minha
infância eu aprendi com minha mãe que ser família é ter coragem
de morrer um pelo outro. Ser família é colocar sempre a minha
necessidade em segundo lugar. Ser família é não ter
ressentimentos. Ser família é estar sempre aberto a perdoar. Ser
família é ter a confiança de que o outro sempre estará receptivo
a entender a minha atitude. Ser família é estar permanentemente
aberto ao perdão, sem nem esperar que o outro se mova nesta
direção.
Conclusão: “mandei descer o retrato da parede”. Estou totalmente
convencido de que família é um ideal em construção (estado de
total felicidade), e a foto comprovadora podia passar para mim
uma falsa sensação de dever cumprido. Ser família é tarefa
comprida e inacabada, incompatível com uma simples e instantânea
documentação fotográfica.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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