Semana passada
fui surpreendido por uma cliente, que se disse leitora de meus
textos, com uma cobrança inusitada. Ela desejava saber
notícias de minha filha Annelise. Disse-me que acompanhava
semanalmente o que tenho escrito, e toda semana quando abria o
"O Jornal" procurava ver se eu havia escrito algo
sobre o que estava se passando com essa filha mais velha. Quando
percebia que eu estava tratando de outras coisas, se
decepcionava. Ela desejava que continuasse contando, como em
capítulos de novela, o desfecho da opção vocacional assumida
por ela.
Quando tivemos esse encontro, eu fiquei rindo
e lhe disse para aguardar que assim que tivesse outras notícias
importantes eu partilharia com ela.
Depois que ela se foi, eu fiquei pensando num
dos últimos encontros que tive com a Annelise, quando
aproveitei para levar a minha filha mais nova (Louise) para uma
curta visita de três dias. Pensei nos detalhes que pudessem
servir como um indicativo concreto da opção por ela exercida.
Lembrei-me que no dia de retornar, e já
dentro do táxi, um fato me fez recordar de uma história que
havia se passado com um casal amigo que vive na Bahia. Eles
moravam numa casa e tinham um cão que fazia parte da família.
Um dia se mudaram e condicionaram o aluguel da casa ao fato de
que os inquilinos adotassem o cão, e assim aconteceu. Num
determinado dia, resolveram voltar àquela casa para visitar os
novos moradores e rever o fiel cão. Ao chegarem, foram saudados
pelo cão de uma forma especial, com muitas "balançadas de
rabo", muitos "abraços", enfim, muita festa.
Quando chegaram à sala da casa, o inquilino sentou-se numa
poltrona e os convidou também a sentarem-se para uma conversa.
Nesse momento, o cão parou toda a festa e, mansamente,
acomodou-se aos pés do novo dono, numa sinalização de que
seria sempre reconhecido, mas a sua fidelidade agora estava
depositada em outro "senhor".
Nesse dia, olhando pelo retrovisor, assisti
com os olhos cheio de lágrimas o momento em que a Nana (embora
também chorando) abraçou a Louise demoradamente, e depois a
colocou ao meu lado dentro do carro. Em seu olhar senti a força
da decisão que tomou, como se estivesse dizendo para mim que,
mesmo não desconhecendo a família de sangue, naquele momento,
estava servindo a outro Senhor.