ESQUINA CULTURAL
Notícias da filha

Semana passada fui surpreendido por uma cliente, que se disse leitora de meus textos, com uma cobrança inusitada. Ela desejava saber notícias de minha filha Annelise. Disse-me que acompanhava semanalmente o que tenho escrito, e toda semana quando abria o "O Jornal" procurava ver se eu havia escrito algo sobre o que estava se passando com essa filha mais velha. Quando percebia que eu estava tratando de outras coisas, se decepcionava. Ela desejava que continuasse contando, como em capítulos de novela, o desfecho da opção vocacional assumida por ela.

Quando tivemos esse encontro, eu fiquei rindo e lhe disse para aguardar que assim que tivesse outras notícias importantes eu partilharia com ela.

Depois que ela se foi, eu fiquei pensando num dos últimos encontros que tive com a Annelise, quando aproveitei para levar a minha filha mais nova (Louise) para uma curta visita de três dias. Pensei nos detalhes que pudessem servir como um indicativo concreto da opção por ela exercida.

Lembrei-me que no dia de retornar, e já dentro do táxi, um fato me fez recordar de uma história que havia se passado com um casal amigo que vive na Bahia. Eles moravam numa casa e tinham um cão que fazia parte da família. Um dia se mudaram e condicionaram o aluguel da casa ao fato de que os inquilinos adotassem o cão, e assim aconteceu. Num determinado dia, resolveram voltar àquela casa para visitar os novos moradores e rever o fiel cão. Ao chegarem, foram saudados pelo cão de uma forma especial, com muitas "balançadas de rabo", muitos "abraços", enfim, muita festa. Quando chegaram à sala da casa, o inquilino sentou-se numa poltrona e os convidou também a sentarem-se para uma conversa. Nesse momento, o cão parou toda a festa e, mansamente, acomodou-se aos pés do novo dono, numa sinalização de que seria sempre reconhecido, mas a sua fidelidade agora estava depositada em outro "senhor".

Nesse dia, olhando pelo retrovisor, assisti com os olhos cheio de lágrimas o momento em que a Nana (embora também chorando) abraçou a Louise demoradamente, e depois a colocou ao meu lado dentro do carro. Em seu olhar senti a força da decisão que tomou, como se estivesse dizendo para mim que, mesmo não desconhecendo a família de sangue, naquele momento, estava servindo a outro Senhor.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

Voltar

Desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da SBC - Todos os Direitos Reservados
© Copyright 09/06/2026 | Sociedade Brasileira de Cardiologia |
tecnologia@cardiol.br
 Busca