ESQUINA CULTURAL

A síndrome do ninho repleto

Recentemente, estava com o rádio de meu carro acionado e escutei uma psiquiatra falando sobre a síndrome do ninho vazio. Ela discorria com muita competência sobre o problema, explicando ser comum os pais experimentarem de uma tristeza (muitas vezes traduzida por um estado depressivo) quando os filhos crescem, tornam-se independentes, ou muitas vezes casam-se (especialmente as mulheres), deixando o aconchego da casa. Essa tristeza geralmente surge com a saída do último filho (em quem tem mais que um). Toda a rotina da casa e da vida do casal é alterada em função desta “ausência”, mesmo que a mudança seja para uma casa ou um apartamento situado na esquina da mesma rua.

Neste mesmo dia a primeira cliente que atendi em meu consultório era uma mãe com o coração despedaçado, porque o seu filho havia sido assassinado. A tristeza também continha um misto de revolta porque o assassino de seu filho estava solto e ainda a ameaçando. Pensei na síndrome do ninho vazio, com alguns agravantes: “sem possibilidade de resgate da ausência, e ainda um ninho ameaçado pela violência e pela impunidade”.

Em seguida fiz uma reflexão sobre outra possibilidade. A que estou temporariamente (espero) vivendo. Refiro-me a síndrome do ninho repleto (empanturrado). Como pai (de muitos filhos), estou angustiado ao perceber a dificuldade dos maiores se estabelecerem nas suas vidas profissionais apesar da boa formação. Mesmo os que já saíram (abandonaram o ninho), porque constituíram famílias, não conseguem alçar vôo num bater de asas de liberdade, e voltam periodicamente para “beliscar” e se fortalecer na segurança do ninho familiar. Posso até dizer que isso não é ruim, o ninho familiar deve ter essa função de receber e aquecer periodicamente os rebentos, o problema é quando ele (o ninho) fica sempre repleto.
 
Não desejo nem falar nos pelanquinhos que ainda terei que fortalecer e “engordar” para a vida. Com eles já estou acostumado, e o ninho especial é a minha própria cama. “Alimentá-los” não me provoca angustia, essa é a minha função de pai e provedor. O problema é com os que estão prontos para o vôo. A vida está muito difícil para eles.

Três visões diferentes de ninhos e três modelos de sofrimento: “um ninho vazio porque cumpriu a contento a sua missão de formar, educar e lançar para a vida; um, em que a violência cuidou de desocupar; e outro, no qual a vida parece surgir como uma opção apenas para os que desejarem ousar”.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

Voltar

Desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da SBC - Todos os Direitos Reservados
© Copyright 09/06/2026 | Sociedade Brasileira de Cardiologia |
tecnologia@cardiol.br
 Busca