ESQUINA CULTURAL

Medicina não é negócio

A Revista Isto É da semana passada trouxe uma entrevista do Ex Ministro da Saúde, o renomado cardiologista Adib Jatene. É um texto que deve ter sido bastante lido, mas estranhamente pouco comentado. É como se o que foi dito é algo tão óbvio, que nos resta apenas concordar. Confesso que gostei de quase tudo que ali está posto, no entanto, depois de ter lido e relido toda a entrevista, cresceu em mim um desejo de colocar nesta questão (especialmente no título da entrevista), um ponto de vista intermediário (diferente).

Penso que nenhuma profissão deva ser apenas negócio. Até mesmo para quem vive de vendas, o objetivo não deve ser, exclusivamente e nem prioritariamente, o lucro, mas a satisfação do cliente. Caso fosse vendedor, de qualquer coisa, e não médico como escolhi ser, rejeitaria trabalhar com um produto de má qualidade, e tampouco receber por meu trabalho uma remuneração não condizente.

Todas as vezes que recebo o meu salário de médico aposentado, depois de 30 anos de trabalho no Ministério da Saúde, fico imaginando que deveria ter escolhido alguma forma diferente para ter gasto tanto tempo de minha vida. O equívoco de ter aceitado acumular dois vínculos (na época baseado na falta de profissionais dessa área), impediu-me de lutar para ter apenas um emprego com salário compatível ao investimento que fiz para cuidar de vidas. Nenhuma outra profissão exige seis anos de graduação, mais dois anos de uma residência em clínica médica e mais três ou quatro anos de especialização. Sem contar nos anos gastos para conseguir uma vaga, disputada (em média) por mais quarenta jovens, além do esforço despendido para colocar na cabeça um conteúdo inútil, visando à lógica do acesso às diversas faculdades dessa área.

Estamos, no momento, atravessando, no nosso Estado, uma desgastante greve de médicos. Além de exigirem condições de trabalho dignas, a questão salarial aparece como aspiração dominante. O aviltamento da remuneração de nossa categoria não é coisa nova, vem de longa data. Posso até dizer que não é culpa do atual Governo. A degradação é histórica e tem muitas causas. Até mesmo nem acredito que seja possível uma reparação imediata. Por isso, louvo a decisão (que não tive coragem de tomar quando jovem), que meus colegas tomaram ao pedir demissão de um emprego desinteressante. Estranho é o fato de que o Estado não compreenda essa decisão, e tente ameaçar o colega que descobriu não valer a pena continuar trabalhando e recebendo um salário vil. Medicina (como qualquer outra profissão), de fato, não é negócio, mas médico também tem família, paga contas, paga impostos, come, veste e necessita estar sempre atualizado.
 
Sendo assim, mudaria o titulo da entrevista do professor Adi Jatene para: medicina não é negócio, mas não é só sacerdócio (porque nem mesmo o sacerdócio é só sacerdócio — religiosos também comem, pagam contas...).

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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