ESQUINA CULTURAL

A ver navios

Nunca entendi bem esse tal de programa espacial brasileiro. Muito menos consegui compreender o porquê de se gastar tanto dinheiro por alguns dias de glória no espaço e por umas experiências mixurucas feitas pelo primeiro astronauta brasileiro.
 
Fui (acredito) contaminado pela mídia no período que antecedeu o evento, embora tendo as minhas dúvidas e uma vontade enorme de criticar o investimento, e também sufocado pelo apelo emocional de que a ida de um brasileiro para o espaço seria muito importante para contagiar a nossa juventude tão carente de verdadeiros ídolos. De maneira que passei até a acompanhar o desfecho da viagem, torcer para que tudo enfim desse certo e que a viagem não tivesse o mesmo destino de nossa base de Alcântara (que se foi pelos ares).

Depois do retorno desse belo passeio pelo espaço, assisti o nosso astronauta ocupar todos os espaços abertos pela mídia com o seu empolgante sorriso, que já me pareceu anunciador de propaganda de dentifrício.

Agora tenho conhecimento de que ele, aos 45 anos de idade, solicitou baixa da Força Aérea Brasileira (para entender bem, se fosse funcionário civil estaria se aposentando), e assim ficou livre para vender a sua imagem sem ser incomodado por denúncias de que como funcionário público não poderia desempenhar esse vantajoso papel de garoto propaganda.

Agora passei a entender os verdadeiros objetivos de nosso risonho astronauta. Ele ria constantemente era da gente, e toda aquela satisfação já era deboche. Apenas fico triste com o que possam estar pensando os jovens que se empolgaram com a sua missão. Ele ainda se justifica dizendo que as experiências realizadas no espaço serviram para alavancar o crescimento de nosso programa espacial. Gostaria de entender o valor de, pelo menos, uma de suas experiências.

Fosse ele funcionário público, ou mesmo um professor universitário que tivesse saído com dinheiro público para uma pós-graduação, deveria em caso de afastamento definitivo (e agora já regulado pela nova lei de aposentadorias, com 60 anos) trabalhar por igual período ou ressarcir aos cofres públicos todo o valor recebido durante o tempo de sua preparação para astronauta (o que até seria pouco).

Assim, enquanto o nosso astronauta aproveita as vantagens de ter visitado o espaço, os contribuintes que pagaram os dez milhões de dólares pela viagem ficam mesmo “a ver navios”.


Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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