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Em mim, nem procurem
É curioso como o conceito de santidade pode ser entendido de forma diferente por cada um de nós. Curioso também é uma certa necessidade de reconhecermos em determinadas pessoas características de santidade. E mais curioso ainda é a necessidade coletiva de se possuir santos para neles creditar aspirações e expectativas milagrosas.
Apesar de uma certa devoção (acho que genética) por Santa Terezinha, por quem a minha mãe tinha veneração e a quem confiava e entregava nos finais dos dias todas as alegrias e preocupações, posso afirmar que o meu entendimento é um pouco diferente (talvez deformado, reconheço). Imagino sempre que cada um de nós, sendo criaturas de um único Deus, carrega sempre em potencial essa vocação à santidade. O que atrapalha esse desenvolvimento são as negações diárias do amor. Assim, enxergamos o verdadeiro santo enquanto vivo, na sua lida diária com as pessoas com quem convive, e nunca depois de morto.
Reflito hoje sobre essa questão porque desejo participar (contribuindo à minha maneira) desse movimento já iniciado por um grupo de católicos (no qual enxergo alguns amigos) numa tentativa de reconhecimento da santidade do menino Petrúcio (de quem ouço falar pelas suas virtudes desde criança). Tomei conhecimento (lendo os jornais) de que pretendem fazer uma exumação (65 anos depois) na busca de provas físicas que possam dar sustentação ao processo inicial de beatificação de mais um santo para nossa Igreja Católica.
Penso (logo insisto) que a santidade dispensa provas. Ser santo é conviver com o natural sem ser necessário nenhum esforço adicional para atingir essa condição que para mim é essencialmente humana. No entanto, buscamos sempre um caminho para escrever e justificar a trajetória dos santos pelo lado sobrenatural, pelas graças concedidas, pelos milagres que ele possa ter realizado. Imagino que, pudessem os santos operar milagres, o fariam de forma coletiva num esforço de melhorar o mundo para todos. Não acredito em santos que promovem benefícios individuais e destinados apenas a algumas e privilegiadas pessoas. Em verdade, não creio mesmo é em milagre (embora um dia espere ser alvo de um deles - risos).
Com base nesse raciocínio, quando um dia eu estiver "descansando" o justo sono da eternidade, não procurem nenhum sinal físico de santidade (até porque, se existirem, em mim faltarão). Caso fosse possível, gostaria sim de sofrer uma "exumação" completa das minhas atitudes diante da vida e, se no final concluírem que amei e fui amado suficientemente, deixem-me apenas continuar o meu merecido descanso, porque terei atingido todos os estágios da evolução humana.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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