ESQUINA CULTURAL

Não foi

Mesmo já tendo decorridos alguns dias do episódio, não dá para falar de outra coisa. Ainda mais quando se trata de uma jovem alagoana. Esse seqüestro (acho que já não deve ter mais trema), seguido de morte, abalou toda uma Nação. Os mais consternados, certamente, são os pais, porque todos se vêem como prováveis vítimas, chegando a elaborar no sub-consciente a atitude que tomariam diante de uma situação semelhante.

No início do caso, ouvi a opinião de um especialista em segurança que o desfecho seria inesperado. Ele alegava que não estava diante de um marginal (quis dizer, um elemento com entradas na delegacia), mas de um jovem apaixonado que, se sentindo traído pela sua ex-namorada, aparecia como capaz de tudo (soltá-la e se entregar, matá-la e cometer, em seguida, suicídio, ou simplesmente matá-la – como aconteceu).

Como vemos, a chance de errar era muito pequena. Para mim o erro foi na avaliação de que não estávamos diante de um marginal, simplesmente porque nunca havia entrado na delegacia. O desfecho provou que o indivíduo era mesmo um marginal. Um assassino frio que premeditou o crime, e teve mais de cem horas para refletir e não cometê-lo.

Digo isso porque não acredito que se mate por amor. Pode se matar por traição, desamor, abandono, loucura, mas por amor não se mata. O amor verdadeiro não permite gestos como este. Amar é sempre desejar o bem do outro. Amar é este desejo de estar perto, de se sacrificar pelo outro, de entender o outro, enfim, de fazer o outro feliz. Quem mata não ama nem a si próprio. A violência é o maior desprezo que se pode ter por qualquer semelhante, especialmente, quando é cometida sob o pretexto do amor.

Em meio a essa tragédia, uma demonstração maior de amor foi dada pela mãe da jovem. Quando entrevistada, revelou que estava preparada para perdoar o assassino de sua filha. Perdão, sim, é gesto concreto de amor. Não teria esse desprendimento. O meu coração não conseguiria perdoar uma pessoa que tirasse de meu convívio um filho.

Continuando a entrevista, ela disse algo, do qual discordo totalmente: “quem sabe, Deus não desejou a vida de minha filha para salvar outras pessoas (referindo-se ao gesto nobre da doação dos órgãos)”. Tenho muitas dúvidas de ordem religiosa, mas não essa. O Deus do amor não é capaz de desejar uma vida nem que seja para salvar sete. Quando precisou salvar a humanidade, Ele próprio se ofereceu. Esse foi um desejo assassino de um jovem que, não compreendendo ser impossível se aprisionar o amor, resolveu determinar a sua morte. Nunca um desejo de Deus, tenho certeza. Não se mata por amor, assassina-se o amor. Deus transparece nesse episódio nas palavras da mãe, quando ela perdoa o assassino, mas não na tentativa de explicação para o delito. Desamor não é um desejo de Deus.

 

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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