Ontem passei o dia todo trancado no meu
consultório e não pude assistir aos noticiários que a Imprensa
estampava a cada momento, especialmente na televisão. Mas, nem
precisava estar atento ao fato, porque todos os pacientes que
entravam (até esqueciam o motivo da consulta) desejavam falar
sobre uma tal de operação “Guabiru”, desenvolvida em nosso
Estado pela Polícia Federal, que colocou pessoas importantes da
nossa sociedade atrás das grades.
Não desejo antecipar condenações e tampouco imaginar que todos
os envolvidos sejam, de fato, merecedores das detenções e das
algemas a que foram submetidos, embora, pelas declarações dos
diversos juristas entrevistados sobre o assunto, essa foi uma
ação bem planejada que conseguiu manter sigilosa uma
investigação de dez meses, baseada em escuta telefônica.
A acusação é de desvio de verbas do Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE), que destina recursos até
para a merenda escolar. Caso fique comprovado uso indevido de
dinheiro público, não importa para qual finalidade se destina, é
acusação grave, mas, se entendermos que esse dinheiro deveria
ter sido empregado em merenda escolar, cresce o dolo, porque
seria como “roubar pirulito de uma criança”, e mais grave ainda,
porque muitas vezes crianças chupam pirulitos sem estar com
fome, no entanto, para crianças pobres que vão para a escola sem
comida, essa merenda passa a ser a única refeição do dia. Então,
se ficar provada a veracidade, podemos imaginar que chegamos ao
máximo da safadeza e da maldade.
Uma coisa, que enxergo
como sem muito sentido a essa altura, é a Polícia Federal dar a
entender que as prisões não estão ainda completadas, porque para
muitas das ordens expedidas os envolvidos não foram localizados
(devem ter fugido). Os que fugiram devem ter os seus nomes
divulgados porque, agora, são foragidos, e as suas
identificações, nesse momento, ajudarão ao trabalho da própria
Polícia. Alguns amigos até comentam que muita gente grande fugiu
de Alagoas no dia de ontem porque não sabia ao certo o motivo de
tantas detenções e, em caso de dúvida, por terem culpa em outros
tipos de contravenções, “optaram” por ficar distante até
entender bem o que estava acontecendo.
Gostaria de analisar dois aspectos desse episódio: primeiro,
como ficará a vida dessas pessoas daqui para a frente, se nada
for provado? Imagino a situação de um pai de família, diante de
seus filhos, ao se ver filmado de algemas sob a acusação de
roubar dinheiro de merenda. Como também a situação dos filhos,
diante dos amigos de colégio, ouvindo: “ontem vi seu pai
algemado e preso”. Eu não suportaria esse vexame; segundo, como
ficarão, de fato, os comprovados “guabirus”, se depois dessas
detenções isso não der em nada (como eu imagino que ocorrerá)?
Com certeza, fortalecidos na impunidade, prontos a continuarem
saqueando o dinheiro do povo e, dessa feita, de forma debochada,
porque nem a Polícia Federal (que ainda mete medo em muita
gente) foi capaz de conter os atos da suposta quadrilha.
Para os que alimentam a idéia de que já deu em alguma coisa o
simples fato de determinadas pessoas terem sido presas,
convido-os a refletirem sobre os riscos bem maiores, que advêm
do “não vai dar em nada”.
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br