ESQUINA CULTURAL
Nada com coisa nenhuma

Lembro-me de umas férias em Nova Iorque, em que a Inês foi roubada enquanto fazia compras numa grande loja. É uma sensação muito desagradável, ainda mais quando acontece num ambiente desconhecido e tendo que dar explicações em inglês. Vencido o primeiro impacto, tomamos conhecimento de que seria necessário registrar a queixa numa delegacia para comprovar junto ao seguro a perda de travel cheques e receber de volta o que havia sido roubado. Com a ajuda de amigos localizamos a delegacia mais próxima, e para lá nos dirigimos a fim de efetuar a queixa e receber o "famoso" boletim de ocorrência. 
Lá chegando, recebemos logo uma ficha de atendimento e confortavelmente esperamos a nossa vez. Tudo corria bem até que a Inês insinuou ser capaz de reconhecer a mulher que lhe havia roubado o dinheiro, já que suspeitava ser a mesma com quem havia esbarrado dentro da loja. O policial, que até então apenas colhia os dados para a emissão do documento, foi até um outro ambiente e de lá retornou com dois pesados livros contendo inúmeras fotografias de suspeitos. Não necessito contar que a nossa manhã ficou perdida nessa tentativa de identificar o marginal. O problema era muito simples de entender: de nossa parte havia apenas o desejo de ter um documento comprobatório do furto, e do outro lado uma polícia competente e eficiente desejando realizar a sua missão, que era prender o ladrão.
Lembrei-me dessa história agora, porque na semana passada o carro de minha filha foi arrombado na porta de nossa casa. Vidro quebrado, som roubado e muito vandalismo com a destruição de todo o painel. Acionamos o seguro e fomos informados de que seria necessário ter um "boletim de ocorrência" para ser ressarcido do prejuízo. 
Depois de um dia de espera numa das delegacias encarregadas dessa função não conseguimos atendimento. Nessa mesma delegacia fomos orientados a procurar outra, que também funcionava à noite. A essa, enviei minha filha (dona do carro) para resolver a pendência, condição indispensável para dar prosseguimento aos trâmites legais. 
De minha filha ouvi o seguinte relato: "painho, que situação mais constrangedora vivi para conseguir esse documento. De início, não queriam fornecê-lo porque o ocorrido fora no dia anterior. Foi necessário mostrar que passamos todo o dia tentando resolver, mas não logramos êxito. Depois tive que ouvir piléria do tipo: 'não sei o que essa gente rica vem fazer aqui'. Tive vontade de dizer que, se soubesse onde gente rica (mesmo sem ser) tira um documento como esse, não teria me submetido ao ridículo de visitar um ambiente tão hostil. Após um tempo aproximado de duas horas e meia, e tendo que enfrentar a perícia de uma datilógrafa que procurava as letras com os dedos, enfim, pude receber o documento e ainda ouvir, na saída, novas chacotas".
Penso que esse tal "boletim de ocorrência" (pelo menos em nosso Estado) é mais um desses documentos burocráticos, totalmente sem sentido, que deveria simplesmente não existir, poupando as vítimas de um novo (e mais cruel) constrangimento. O que deveria existir era a "ocorrência" de uma Polícia preparada e que correspondesse aos impostos que os cidadãos comuns, hoje totalmente entregues a desenfreada violência urbana, pagam como se fosse um verdadeiro mico. Sair de uma delegacia com esse documento na mão é o mesmo que chegar num Posto de Saúde, ser consultado com desprezo e, no final, receber um papel com o diagnóstico e nenhuma providência sobre o tratamento. 
Em outras palavras é: nada com coisa nenhuma. 

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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