ESQUINA CULTURAL

Motta com dois "T"

Minha mãe teve oito irmãos. Muito cedo cinco deles foram tentar a sorte no Estado de São Paulo. Posso dizer que quase todos se deram bem e lá se desenvolveram e constituíram família. De longe, começamos a tomar conhecimento dos primos e das outras gerações que vieram. Acredito que temos mais parentes lá do que mesmo aqui em Maceió, onde ficaram os demais irmãos de minha mãe (depois tivemos mais duas tias que também tomaram o mesmo destino).
 
Como antigamente a comunicação não era como hoje, as notícias chegavam por carta e às vezes por telefone. De vez em quando um deles vinha passear trazendo a família, e assim os laços afetivos foram se mantendo.

Foi nessas idas e vindas que recebemos uma visita muito especial de uma prima chamada Rita, e que assinava o sobrenome Mota de nossa família com dois T. Por brincadeira, dizíamos que havia os Mota com um T (dos que ficaram em Maceió) e os que surgiram em São Paulo que, por serem ricos, acrescentaram mais um T ao nome.

Rita já nos visitou casada com Elias, e acrescentando ao Motta o sobrenome Chamma. Com eles já vieram, ainda pequenas, as três filhas Patrícia, Samara e Andréa. Lembro como hoje de sua vinda, de sua hospedagem no Hotel Luxor e da felicidade que tivemos em recebê-los na casa de meu sogro. Naquela oportunidade pude brincar com eles dizendo que a comida seria galinha de cabidela (já sabia que eles odiavam esse prato).

Rita era um ser todo especial. Vinha visitar Maceió com o desejo de mergulhar na sua origem e reencontrar os parentes, que nem conhecia, como se fosse uma imperiosa necessidade. Buscava essa aproximação como se tivesse um desejo de recuperar o tempo perdido, e assim virou a tia Rita para os meus filhos.

Voltaram tantas vezes que decidiram se estabelecer de forma quase definitiva comprando um sítio no município de Ipioca. Para lá, enviaram de São Paulo uma casa pré-moldada, e a colocaram no centro de uma área cercada por coqueiros e mangueiras (gostavam de ouvir o barulho das palhas quando soprava o vento). Adoravam receber os parentes sempre que chegavam e definitivamente, foram se tornando (o que já eram) família. Uma verdadeira união dos Mottas com os Mota.

No dia 17 de abril recebi uma mensagem de minha filha Anita comunicando a morte de Rita. Estávamos num Cruzeiro (eu e Inês) quando a notícia chegou. Demoramos a acreditar, e por algum tempo invadidos por uma tristeza imensa choramos a dor de uma despedida inesperada. Na bagagem da vida o que vamos acumulando são lacunas, vazios; e a morte de Rita fará parte desse acervo.

Prima, agora entendo o porquê dos dois T em seu nome: você foi em vida duplamente Mota antes de “ascender” Chamma.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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