ESQUINA CULTURAL
Morte Cardíaca Súbita e Exercício

Segundo o dicionário do Aurélio, morte súbita é a “terminação rápida ou imprevista da vida por processo mórbido, muitas vezes latente”. Esse conceito, aceitável também do ponto de vista médico, nos coloca frente a frente com a imprevisibilidade e com a irreversibilidade da morte, fazendo-nos assumir de forma abrupta, inegável e bastante dolorosa, a nossa frágil condição humana. E invariavelmente nos amedrontamos ante essa nossa fragilidade, e nos perguntamos : e se fosse eu ? Que será que devo fazer para evitar que isso ocorra comigo ? É possível mesmo evitar essa situação ?

Considerando a importância da rápida conexão que fazemos entre exercício e saúde, parece humanamente impossível aceitarmos, por exemplo, que a morte súbita(que em adultos é quase invariavelmente de causa cardíaca !) possa acometer jovens atletas, representantes em nosso imaginário da saúde plena, fundamentada na ausência de maus hábitos, na prática regular de exercícios físicos e na adoção de uma dieta sem excessos. A morte cardíaca súbita num indivíduo como esse, que deveria ser um exemplo de uma vida sadia e longa, nos confronta não apenas com a situação da morte em si, mas também com o conhecimento e a prática médica hoje disponíveis, nos deixando momentaneamente órfãos nesse aspecto.

Entretanto, apesar do indiscutível benefício da atividade física regular na prevenção e no tratamento das doenças crônico-degenerativas (dentre elas as doenças do coração), é sabido que o exercício físico (ou seja a atividade física estruturada, planejada e repetitiva) pode desencadear eventos cardíacos graves (infarto agudo do miocárdio ou morte cardíaca súbita) em indivíduos que apresentam uma doença cardíaca prévia (muitas vezes ainda desconhecida pelo seu portador !). Sabe-se, por exemplo que 4 a 7% dos casos de infarto agudo são precedidos da realização de exercício intenso.

Por isso se faz necessário investigar em todos os indivíduos que iniciam a prática de exercícios físicos, visando ou não o condicionamento do atleta, a existência de condições relacionadas ao coração que, durante o exercício, podem favorecer a ocorrência da morte súbita. Isso é de extrema importância, pois o diagnóstico prévio de doenças cardíacas estruturais (ou do músculo cardíaco, detectadas pelo ecocardiograma), elétricas (detectadas pelo eletrocardiograma, Holter de 24 horas ou durante estudo eletrofisiológico) ou isquêmicas (detectadas pelo teste de esforço, cintilografia miocárdica ou durante cateterismo cardíaco) permite o planejamento adequado da atividade física, visando a não-prescrição de exercícios vigorosos que podem levar à morte súbita. Tais avaliações podem, inclusive, determinar a contra-indicação da prática de exercícios de grande intensidade, em indivíduos que não apresentam condição clínica para tal.

Além disso, inúmeras condições cardíacas que predispõem à morte durante o exercício, estão presentes em pessoas que não têm sintomas (ou tendo-os, não os valoriza !), assumindo nas mesmas esse caráter de “latência”, presente na definição de morte súbita acima mencionada.

Creio, portanto, que vale o lembrete cuidadoso de que : todos os indivíduos, independente da idade, que vão se submeter a um programa de exercícios visando ao condicionamento desejado pelo atleta das diferentes modalidades, devem submeter-se à investigação cardiológica (história clínica, exame físico e alguns exames complementares) que, em sendo normal, lhe permita realizar e adequar o treinamento a sua condição.
Para os demais adultos que desejam iniciar atividade física, após prolongados períodos sedentários, vale o mesmo lembrete, considerando que a morte súbita chega a acometer em torno de 250.000 brasileiros (não atletas !) por ano, sendo na imensa maioria das vezes determinada por uma causa cardíaca, que pode ser desencadeada por um nível de exercício inadequado para o indivíduo.

A boa notícia é que a morte súbita durante atividade física é rara, acometendo anualmente uma dentre 250.000 pessoas (aparentemente) saudáveis. Dentre os atletas jovens e de alto nível de treinamento é ainda mais rara e quando ocorre encontra-se quase sempre associada a uma condição cardíaca que poderia ter sido detectada em avaliação prévia à competição.

Resumindo, elevar o nível diário de atividade física auxilia a melhorar a qualidade e a quantidade da vida que pretendemos ter. Para determinar qual é o nível da atividade que devemos executar, o nível no qual o benefício será maior que o risco, nós precisamos da ajuda do cardiologista.

Maria Alayde Mendonça Romero Rivera

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