ESQUINA CULTURAL
Porque tudo é mistério

Nesse mês de outubro que passou, perdemos dois Serginhos. Em comum entre eles, apenas a forma como morreram. Um, era muito caro para nós, cardiologista respeitado e competente. Os que desfrutavam, mais de perto, de sua amizade enxergavam nele qualidades de pacificador e de imenso companheirismo. Surpreendeu a todos porque (excetuando a sua história familiar de risco cardiovascular) era uma pessoa que cultivava hábitos saudáveis. Recebemos a notícia de sua súbita morte quando estávamos em Recife participando de um Evento Científico em companhia de outros colegas de nossa terra. Foi uma manhã de muita tristeza e perplexidade. Todos que chegavam e recebiam a notícia ficavam atônitos e faziam uma exclamação: logo ele que se cuidava tanto! Não vou falar na saudade que a sua ausência está provocando na classe médica de nossa terra, no seio de todos os seus amigos e nem no vazio que deve estar vivendo a sua família, até porque, outros colegas já conseguiram externar todo esse sentimento em vários textos que tive a oportunidade de ler. Vou privilegiar nessa prosa um outro aspecto.

O outro Serginho não era nosso amigo, mas a sua morte comoveu todo o país porque foi mostrada ao vivo. A perplexidade foi exatamente a mesma: como pode uma pessoa tão forte, jovem e saudável, de repente, desabar em plena partida de futebol e morrer?

Em ambos os casos a única explicação plausível é que houve morte elétrica. O coração apresentou uma forma desordenada de contração, denominada fibrilação ventricular e que, por não ter sido tratado a tempo, evoluiu para a morte.

Costumo dizer aos meus pacientes que não se morre de repente, a não ser que seja de acidente. Na maioria das vezes, a pessoa que morreu subitamente tinha uma doença grave e não sabia. No entanto, uma morte súbita pode ser decorrente de diversas causas na dependência de vários fatores intercorrentes, e nesses dois casos o fator diferencial foi a idade (o mais importante e inexorável fator de risco). O nosso Serginho, apesar de jovem, já beirava os cinqüenta anos, por isso, a possibilidade de doença nos vasos coronarianos e de ativação inadequada no sistema de coagulação era real. O outro Serginho, mais jovem, beirando ainda os trinta anos, possuía menos chance de ter doença coronariana. Nesse caso, as doenças do músculo cardíaco (de nome mais complicado, miocardiopatias) são as causas mais prováveis determinantes da arritmia fatal.

Embora ambos tenham morrido, provavelmente, de causas diferentes, mais que a própria morte, o caráter súbito da morte é o que mais comove e choca, criando em todas as pessoas uma sensação de insegurança diante do bem maior que é a vida, ainda que, paradoxalmente, seja a morte a única certeza que possuímos. 
Certa feita, lendo um livro de Alceu de Amoroso Lima, aprendi que: "a única vitória que podemos ter sobre a morte é que ela não nos impeça de amar a vida". No entanto, o próprio autor, considerado o maior pensador católico leigo, conclui dizendo: "mas não é fácil, porque tudo é mistério".



Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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