|
Minha vida, meu suplício
Passo todos os dias
pela ladeira da antiga rodoviária e, nesta semana, fui
surpreendido por uma enorme fila que aguardava alguma coisa. Não
soube logo o motivo, mas imaginei que deveria ser algo muito
importante. Ao chegar à minha clínica, uma cliente comentou
sobre o tamanho da fila e disse-me que precisou de polícia no
local porque houve tumulto, e que esta já se prolongava até as
proximidades da ladeira da Catedral.
O motivo até que é justo. O Projeto “Minha casa, minha vida”
estará oferecendo às pessoas de baixa renda a possibilidade de
colimar o sonho maior: ter um local para morar. Palmas para a
iniciativa do Governo.
Ter uma casa está dentro do sonho de todos, ricos e pobres. A
dimensão e o luxo da habitação é que diferencia a intensidade do
sonho. Acredito mesmo que ter um local para morar completa a
estabilidade de uma família. Viver de aluguel significa não ter
onde morar. Caso o Programa permita que, com o mesmo valor do
aluguel, o seu proprietário consiga pagar algo que será
incorporado ao seu patrimônio é algo deveras estimulante, e até
justifica o sacrifício de se enfrentar uma quilométrica fila.
Semana passada falei sobre o espetáculo de organização que foi
(ou ainda está sendo, porque permanece insepulto) as exéquias do
astro maior da música Pop. Havia apenas dezessete mil ingressos
disponíveis (parece que para Alagoas são 10.000 casas). Sem
nenhuma fila, cerca de um milhão e meio de pessoas se
inscreveram (quase a população de Alagoas). Não houve nenhum
tumulto, e tampouco, depois de ser anunciado o resultado,
nenhuma reclamação.
Fiquei imaginando: “por que será necessário tanto sacrifício
para uma simples inscrição na tentativa de ser um dos
habilitados a comprar uma casa?”. Recentemente o Governo do
Estado organizou um censo de todos os servidores, utilizando
para esta finalidade a via internética (claro que facilitando
vários pontos para a população não usuária) e um agendamento
telefônico (fui atendido até antes do horário previsto, e sem
nenhum tumulto).
O mais simples ainda, para evitar que pessoas tivessem que
acampar nos arredores do local de inscrição, sujeitos às
intempéries do tempo e da violência, seria a utilização dos
Correios. A inscrição poderia ser feita por esta via, e o
resultado dos contemplados divulgados pelos meios de comunicação
e também por esta mesma via (recebendo uma carta confirmatória).
A sensação que fica é que não houve interesse em se fazer isso
de forma discreta. O importante é que o fato chame a atenção de
que o Governo está trabalhando. Respeito com as pessoas, nenhum.
O que de fato conseguiram foi transformar o início do Programa
“Minha casa, minha vida” no que já é a vida das pessoas: “Minha
vida, meu suplício”. Espero pelo menos respeito às regras, e que
não transformem esse Programa em mais um engodo eleitoral, já
que estamos em final de mandato e casas não se constroem na
mesma velocidade que se despertam sonhos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|