Esperava o momento em que seria entrevistado pelo meu amigo
Ricardo Mota quando chegou perto de mim uma pessoa muito falante
e agradável. Iniciamos uma conversa a partir de uma pergunta
sobre a minha participação como articulista deste Jornal. A
conversa foi ficando interessante porque nos descobrimos como
amantes desse desejo incontido de tergiversar sobre o cotidiano.
Falou-me de uma excursão que fizera com seus alunos a Marechal
Deodoro, e a descrição de uma casa de taipa que descobrira bem
próximo à Igreja local fez-me também percorrer as ruas
enladeiradas daquela cidade e defrontar-me com os ricos
detalhes, estilo colonial, das edificações ali existentes.
Depois, falou-me da dificuldade de encontrar espaço para
publicar as coisas que escreve (quase sempre fruto de exaustivas
pesquisas). Revelou-me que, depois de “velho” (força de
expressão), resolvera voltar a estudar e sentia que essa
decisão, no momento, alimentava a sua existência.
Segui ouvindo a tudo atentamente e, em determinado momento da
conversa, até notei que a nossa empolgação estava perturbando
uma das entrevistadas que, na verdade, preferia estar ouvindo o
jornalismo em desenvolvimento.
Falamos não apenas em espaço para publicação de crônicas e
prosas, mas também na redução do tamanho do espaço a que estamos
submetidos. Falei para ele que sou totalmente ajustável a essas
condições. Escrevo exatamente dentro do que me foi permitido,
embora muitas vezes sinta que o raciocínio poderia se
desenvolver mais um pouco, permitindo uma conclusão mais lógica.
Saí daquela conversa encantado com a cultura útil de meu amigo.
Que pena que os espaços para essas pessoas estão ficando cada
vez mais restritos. Identifiquei-me com ele numa coisa
fundamental: essa vontade louca de escrever e socializar o que a
vida vai nos ensinando, e saí dali pensando que vou ficar muito
triste quando também para mim esses espaços começarem a faltar.
Quando ia embora ainda ouvi um trecho de sua entrevista que
dizia ser Leonardo da Vinci e Monalisa a mesma pessoa, e fiquei
pensando: será que Pedro Paixão e Benedito Ramos não são a mesma
pessoa.
Marco
Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br