ESQUINA CULTURAL
A Mestiçagem no Brasil

José Medeiros*

"Não se sabe, com precisão, o número total de negros escravos introduzidos no Brasil, em quatro séculos. Acresce a circunstância de ter acontecido a destruição de todos os documentos da escravidão – diário dos navios negreiros, documentos de compra e venda de escravos, certidões civis e eclesiásticas... ordenada por um decreto de 1890, assinado pelo ministro Ruy Barbosa, após a Proclamação da República." Por esse motivo, a estimativa do número de negros escravos introduzidos no Brasil varia de quatro a dezoito milhões. São muitos os dados e análises contidos na obra do cientista Arthur Ramos "A Mestiçagem no Brasil", recentemente lançada pela Edufal, com o apoio da Reitora Ana Dayse Dórea e da professora Sheilla Maluf.

Sobre essa obra do mestre Arthur Ramos há muitos pontos que merecem ser ressaltados: aborda questões sobre a classificação de negros e pardos, analisa o provável número de índios existentes na época do descobrimento e, apresenta, com clareza, o problema da miscigenação no Brasil. Os escravos existentes em Alagoas – cerca de 43 mil em 1819 – representavam 29% do total da população. Foi o último trabalho científico elaborado pelo médico alagoano, publicado, originalmente, em Francês (1951), já depois de seu falecimento.

Através de conhecimentos científicos considerados avançados, na segunda metade do século XX, ele mostra as qualidades do que chama de "tipo brasileiro", produto de raças e culturas diferentes. Combate, tenazmente, o racismo, o preconceito, e defende o ponto de vista de que os representantes dessa "mistura de raças" – se apresentam condições negativas – estão ligados a fatores deficitários de educação, saúde e miséria econômica.

No momento em que as universidades definem "cotas" para ingresso de pessoas de cor negra e parda, a leitura de "A Mestiçagem no Brasil" poderá contribuir para análise desse polêmico tema.

Volto no tempo para relembrar o momento em que o médico pilarense Emanuel Fortes Cavalcante, presidente do Conselho Regional de Medicina, reuniu entidades educacionais, científicas e culturais com o objetivo de organizar o "Centenário de Arthur Ramos": pretendia-se, nos resultados, tornar mais conhecida a vida e a obra desse eminente médico e escritor. A cidade de Pilar realizou, também, extensa programação comemorativa.

Participando da Comissão Organizadora do "Centenário" tive a oportunidade de enviar livros publicados sobre Arthur Ramos para os presidentes das Regionais da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), em todo o país. Causou admiração, a muitos, a extensa produção científica de Arthur Ramos. O presidente da Sobrames Nacional, Luiz Alberto Fernandes Soares (RS), procurou nas livrarias e "sebos" de Porto Alegre, obras de autoria do cientista pilarense. Leu tudo o que encontrou. Veio a Alagoas, esta semana, e manifestou o desejo de visitar a cidade de Pilar, de conhecer a "Casa de Cultura Arthur Ramos" e as belezas da Lagoa Mundaú.

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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