ESQUINA CULTURAL

Melhor assim

Há duas semanas falei do sentimento de ausência – que chamamos de saudade – que o meu coração iria viver com a partida de minha filha Inesinha para estudar durante um ano no estado da Virgínia nos Estados Unidos. Há uma semana que esse “tempo”, que naquela oportunidade ainda era tempo de espera, se concretizou.

Embora seja um período relativamente curto (um ano passa logo), e eu tenha uma família de muitos filhos, a saudade é sempre, especialmente, grande. Ainda não tive coragem de entrar no seu quarto para não enxergar a sua cama vazia e ter na lembrança o movimento de suas pernas, que sempre a acalentam antes de dormir. Também não desejei olhar para o seu travesseiro, especialmente preparado por ela e contendo numa das pontas um “rabicho” que costuma cheirar até adormecer. Ainda no aeroporto me apresentou um pequeno travesseiro que recebera de presente de uma amiga, e que já o havia preparado com o mesmo detalhe. Hoje deve embalar seus sonhos presentes num país distante.

Em casa sentimos um vazio enorme. Inesinha tem um gênio muito expansivo e, embora não pareça, é muito brincalhona. Lentamente vamos nos acostumando, mas, em alguns momentos, sentimos um desejo enorme de vê-la chegar na porta do quarto para pedir um dinheirinho para encher a carteirinha de vales-transportes (adora andar de ônibus) ou encher de crédito o seu celular (agora desativado).

Ontem, a Nana me contou uma conversa que teve com o Lucca (filho caçula) depois que retornamos do aeroporto no dia de sua partida. Ele falou que havia notado que alguns irmãos estavam com os olhos vermelhos, parecendo haver chorado. Ele não entendia bem o porquê do choro. A Nana explicou que era porque todos estavam tristes e com saudade da Inesinha. Ele então falou algo bem interessante: “eu também tenho muita saudade dela, mas só choro quando sinto dor”.

É, meu filho, que bom seria se todo choro fosse alimentado apenas pela dor física. Ele podia ser amenizado apenas com analgésicos. No entanto, a dor que se sente quando passamos a compreender os sentimentos de ausência e de presença é que nem pimenta, faz os olhos ficarem vermelhos mesmo sem sentir dor. Por isso, meu querido Lucca, não tenha pressa para entender completamente esses sentimentos, é melhor assim.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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