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O Bispo que come melancias
Este assunto de transposição do Rio São Francisco é mais velho
do que a greve do Bispo de Barra (BA), Dom Luiz Flávio Cappio.
No entanto, nunca me atrevi a dar opinião sobre este tema porque
dele nada entendo. A tentativa do Bispo de chamar a atenção do
governo sobre essa proposta já o levou, tempos atrás, a uma
mesma atitude, ou seja, parar de comer enquanto as obras (já
iniciadas) não fossem interrompidas.
Embora sem entender bem os motivos que levaram o Bispo a
insistir nesta luta, tenho escutado ou mesmo lido que está
estabelecido um duelo entre o que é mais importante: a fome do
Bispo que decidiu parar de comer ou a fome de 12 milhões de
pessoas que habitam os estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande
do Norte e Paraíba, regiões atingidas pelas secas em nosso país
e que seriam beneficiadas com o desvio do rio. Para o Bispo a
água desviada servirá apenas para beneficiar os ricos
patrocinadores do agronegócio.
Parece que a própria Igreja Católica não está muito satisfeita
com a rebeldia do Bispo, mas numa demonstração de respeito ao
livre arbítrio acompanha o voluntário jejum e envia emissários
no sentido de convencer Dom Luiz Cappio a mudar de idéia. Um
outro Bispo de uma cidade vizinha, até alinhavou uma proposta de
troca do jejum por uma peregrinação no rio, o que foi
descartado. O que tudo indica é que a decisão tomada desta feita
é para valer.
Contra o Bispo, declaradamente, está o governo que não dá nenhum
sinal de que vá interromper as obras. A favor do Bispo, várias
caravanas de fiéis que enxergam na atitude do Bispo semelhanças
com as tomadas pelo líder religioso popular Antônio Conselheiro,
que no passado teve a “coragem” de se sacrificar por uma justa
causa.
Já falei mais de uma vez que deste problema não entendo, mas dos
efeitos de uma prolongada greve de fome (jejum) experimentada,
já há dez dias, pelo Bispo, como médico eu entendo. Por isso,
discordo de sua recente declaração (apesar da decisão judicial
que suspende provisoriamente as obras de transposição) quando
ele chegou a afirmar que a luta contra o governo será longa e
com final imprevisível. Eu contesto porque, se a disposição do
Bispo em se contrapor a transposição for de fato mantida,
teremos um final previsível de uma luta muito curta (a morte do
Bispo). A não ser que ele de fato ande comendo melancias como já
foi suspeitado. Mesmo assim, comer apenas melancias poderá
prolongar por alguns dias o calvário de Dom Luiz Flávio Cappio,
que pode passar para a história como um Bispo teimoso que
“comia” melancias, às escondidas. Saber se ele morreu de fato
por uma causa justa, só depois de muita água correr por debaixo
das pontes.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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