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A medida do amor
Na semana passada escrevi sobre o amor tatuado. Na verdade, coloquei em discussão se o amor pode ser marcado por alguma simbologia e em caráter definitivo (como as tatuagens, que não se apagam mesmo em época dos removedores à lazer).
Hoje vou me aventurar a falar na intensidade e na medida do amor. Não me atreveria a fazê-lo na ótica do amor entre um homem e uma mulher e, por isso, vou fazê-lo a partir do amor paternal.
A minha filha caçula, que se chama Louise, é uma doçura de pessoa. Tão especial que, se possível fosse, não deixaríamos que ela crescesse, porque na sua inocência dos quatro anos tem nos presenteado com muitas revelações e descobertas sobre essa questão tão complexa que é o amor. Sabemos que ela é apaixonada pela Anita, a minha filha de número três (que pensa ser a de número um). As duas possuem uma afinação e uma cumplicidade tamanha que, mesmo possuindo idades tão diferentes, parecem que são contemporâneas. Muitas vezes surpreendo a Louise cochilando no sofá da sala, porque está esperando que a Anita chegue da rua, ou mesmo que conclua a sua hora de "freqüentar" o computador instalado na sala de jantar. A Anita é de fato o ídolo maior dela, e acredito que a Louise também é correspondida nessa "paixão" explícita e revelada.
Então, a partir dessas afirmações vou descrever porque tive recentemente a verdadeira dimensão do quanto sou amado (a não ser que ela estivesse me enganando). Costumo perguntar para Louise se ela me ama. Ela responde sempre assim: "eu já não disse". Aí eu avanço na pergunta: "você me ama como ama a Anita?". Aí ela pára e faz um gesto com as mãos na tentativa de representar o amor que sente abrindo bem os braços, dizendo eu amo você assim, bem muito, mas não entra em detalhes. Aí saio perguntando: "e ao Lucca? E a mainha? E a Bubu? (apelido carinhoso que colocaram na avó)". Ela vai respondendo que ama a todos do mesmo jeito.
Nesta semana tive a dimensão exata do tamanho do amor dela por mim. Estava tomando banho e ela assistindo sentada no batente da banheira, quando aproveitava para fazer perguntas indiscretas. Aí eu fiz a pergunta fatal que ela já anda cansada de responder: "a Louise gosta mesmo do papai? Gosta do papai do mesmo "tamanho" (em alusão a distância de um braço para o outro que ela representa) que gosta da Anita?". Ela, dessa vez, foi além do que eu imaginava. Ficou de pé, colocou as duas mãozinhas na cintura e disse assim um tanto abusada: "Olha painho, eu gosto mesmo de você com esse tamanho, abrindo os braços, mas da Titita (como ela chama carinhosamente a Anita) eu amo daqui até a porta do banheiro. E foi embora para não assistir a minha cara de tristeza.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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