ESQUINA CULTURAL

O Médico que mata

Este foi o título de uma entrevista exibida no Programa Fantástico do último domingo, com o Médico holandês Bert Keizer. Trouxe mais uma vez à discussão o polêmico tema da eutanásia. Sempre parece estranha a associação de um Médico, que tem por profissão dar a vida, misturando-se com esse paradigma de também ser próprio da medicina aliviar o sofrimento, propiciando uma morte rápida e tranqüila.
 
Achei interessante a maneira como ele abordou um tema indesejável, que é a morte. Primeiro, colocando que só existe eutanásia quando o paciente em sã consciência pede expressamente ao Médico para ter a morte antecipada. Depois nos coloca diante da morte com a “singeleza” comparativa a um sonho quando afirma: “A morte é uma daquelas condições que não podemos imaginar. Mas podemos, por exemplo, olhar para a noite passada. Ali, estávamos mortos, porque estar dormindo sem sonhar é como estar morto. É o que todo mundo faz toda noite. O problema é que não podemos imaginar o universo sem nós, mas antes de nascer você esteve morto por bilhões de anos. Isso não foi nada difícil, ou foi?”.

Nesta noite tentei adormecer com essa questão na cabeça. Esforcei-me para mergulhar no sono (não costumo sonhar) com a curiosidade de experimentar aquela sensação de que ele falava, morrer um pouco todos os dias. Não foi fácil. Comecei a imaginar uma porção de coisas que davam sentido à minha vida e das quais não desejaria me apartar. Passou em primeiro lugar o sentimento de apego à minha família, aos meus amigos, ao meu trabalho e aos meus sonhos (que já não são tantos). Depois comecei a pensar na falta que faria como provedor de uma família numerosa. Refleti sobre o valor da minha presença “acordada” no equilíbrio emocional de meu contexto familiar. Caso não acordasse na manhã seguinte, que tipo de falta eu faria a todos que me têm apreço?

A noite foi entrando pela madrugada e eu, naquele pensamento de que dormindo estaria morrendo por uma noite, fui perdendo o desejo de adormecer (coisa em mim pouco comum). Ando tão cansado que ultimamente não tenho nem percebido quando Inês (que mesmo sem ter assistido a essa entrevista parece que já descobriu que dormir é morrer um pouquinho) chega à cama.

Já cansado de tantos pensamentos, e lembrando que no dia seguinte deveria estar bem vivo para continuar a minha labuta, tomei uma decisão e resolvi fazer uma auto-eutanásia. Levantei-me, coloquei um Rivotril sublingual (sem os outros acompanhamentos sugeridos pelo “Dr. Morte”) e, na esperança de acordar (bem vivo – risos) no dia seguinte, mas lembrando que dormir sem sonhar é morrer um pouquinho, esforcei-me para nessa noite sonhar com a vida.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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