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Um mal que vem para um bem
A violência nas capitais começa a chegar aos consultórios médicos e clínicas especializadas (até mesmo, pasmem, consultórios localizados dentro dos hospitais). Parece ser uma ação de quadrilhas articuladas, porque ficamos sabendo de muitas coincidências nos recentes assaltos que vários colegas estão sendo vítimas em várias partes do Brasil. O foco dos roubos está centrado nos laptops, mas já estamos ouvindo relatos de roubos de equipamentos de trabalho e, até mesmo, seqüestros relâmpagos.
Recentemente estive participando do Congresso Pernambucano de Cardiologia, na cidade de Recife, atendendo ao convite de alguns velhos e bons amigos. Numa das manhãs pude encontrar um deles, que há pouco tempo havia sofrido um assalto à mão armada dentro do próprio consultório. Confessou-me que foi uma experiência inusitada porque jamais esperava sofrê-la no local de seu trabalho, que imaginava bastante seguro. Contou-me com detalhes o ocorrido e, depois, deu-me um conselho para manter as informações médicas e as aulas preparadas salvas num outro ambiente para evitar um prejuízo maior. Disse-me que o equipamento a gente até pode depois comprar outro, mas as informações perdidas jamais serão recuperadas.
Seguimos conversando e eu então lhe disse, em tom de brincadeira, que se perdesse o meu laptop acho que cometeria um suicídio. Ele, ainda demonstrando estar de fato sofrendo com o golpe psicológico e com as perdas materiais, fez-me uma confissão curiosa: "Olha Marco, depois que passei por essa difícil experiência, que não desejo para ninguém, nem nunca repetir, fiz uma estranha descoberta: estou mais feliz. Antes eu era um pouco escravo dessas novas obrigações incorporadas desde que entrei nesse mundo internético. Tinha que ocupar boa parte de meu tempo lendo e respondendo e-mails. É verdade que tinha o meu trabalho muitas vezes facilitado, mas tinha que ler muita coisa inútil que chegava diariamente à minha caixa postal, e com isso perdia um bom tempo de meu dia. Agora, quando chego em minha casa, tenho mais tempo para a minha família, e posso dizer até que reatei o diálogo com os meus filhos. Estou pensando seriamente se vou comprar outro laptop".
Nos despedimos com um abraço e, enquanto ele se afastava, fiquei refletindo sobre essa modalidade de "escravidão" da era moderna, que é o computador. Muitas vezes me descubro conversando com a minha filha, que está na sala de casa e eu dentro do quarto, por e-mail, ou mesmo pela "coqueluche" (apenas entenderão o significado dessa palavra os mais velhos) do momento, chamado de Mensenger. Trata-se de um programa que permite, além da conversa em tempo real, a visualização da imagem através de uma web câmera.
Com a progressão dessa modalidade de comunicação corremos o risco de, no futuro, perdermos a vontade de abraçar e beijar as pessoas que queremos bem, transformando o poder da fantástica virtualidade do contato internético num bem que vem para um mal.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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