ESQUINA CULTURAL
ÀS MÃES, UMA HOMENAGEM ANTECIPADA

Sentei-me em frente ao computador para digitar a crônica da semana. Tinha um assunto em pauta para abordar. Minha neta, ao meu lado, me sugeriu: Por que não escreve sobre o dia das mães? - Expliquei que a crônica é publicada às quartas-feiras, um pouco distante das homenagens que são prestadas às mães, no segundo domingo de maio. Não aceitou o meu argumento, com a observação de que todos os dias são dias das mães.

Combinei, com ela, relatar para o leitor uma antiga lenda oriental, que contei para os meus netos no ano passado.

Vou repeti-la, de memória. Um jovem muçulmano aproximava-se da residência de sua noiva, quando, à porta, encontrou o "anjo da morte". Surpreso e preocupado, perguntou ao malfazejo visitante, o que fazia, ali. Ele respondeu que vinha buscar sua noiva, pois, no livro do destino, chegara seu momento final. O rapaz desesperou-se, chorou e implorou pela vida da noiva. Tão jovem, iria morrer tão cedo? O "anjo da morte", sensibilizado, fez, então, uma estranha proposta. Restavam, ao noivo, 50 anos de sua existência terrena; ele poderia doar metade desse tempo à sua futura esposa; ambos viveriam mais 25 anos.

O rapaz espantou-se. Doar metade da vida a alguém? Pediu o prazo de três dias para responder. Consultou amigos, ouviu opiniões. No dia aprazado, encontrou-se com o "anjo da morte". Aceitou a proposta, com uma ressalva: no caso de sua futura esposa não lhe ser fiel, ele retiraria o restante do tempo cedido. Assim foi feito. Meses depois, casaram e foram muito felizes. Nasceu um filhinho, saudado com muito entusiasmo.
Mas, o homem põe e Deus dispõe. Ele necessitou viajar à Meca, cidade sagrada de sua religião. Ao voltar, recebeu uma trágica notícia: sua esposa havia morrido. - Como foi possível, se doei a ela metade de minha vida? Voltou-se para o céu dirigindo insultos ao representante do destino. O "anjo" apareceu e explicou o ocorrido: durante sua ausência a criancinha adoeceu gravemente e esteve às portas da morte. Sua esposa me chamou e ofereceu todo o restante de seus dias para salvar a vida do filho. Uma decisão inabalável.
E concluiu: enquanto, tu, noivo, hesitastes em oferecer metade de teu período existencial, ela, mãe extremosa, não hesitou um minuto em oferecer, pelo filho, a própria vida, sua vida inteira.

Uma história de amor e dedicação. Com carinho, associo-me às homenagens que serão prestadas às mães, no dia consagrado a elas.

José Medeiros*
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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