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Pra quem
ainda tem
Semana passada
recebi de minha prima Geila uma série fotográfica documentando
uma visita realizada por ela e minha tia Marinalva ao local de
origem da família Bezerra Mota. Para ser mais preciso, esse
local fica nas vizinhanças da Usina Sinimbu. Não havia marcas
concretas que configurassem parte da nossa história. Vagas
lembranças, que surgiam da privilegiada memória de tia Marinalva,
determinavam o clic da máquina fotográfica, e assim, o registro
foi sendo realizado
O local está todo mudado. Antigas casas de moradores foram
destruídas, e, no mesmo lugar, outras edificações foram
erguidas. Até o local preciso onde a minha avó (falecida muito
jovem, aos 38 anos, de um mal que ainda hoje atinge muitas
mulheres – morreu durante um parto sem assistência médica) está
sepultada, não possuía nenhuma marca, apenas a informação de que
seria perto do “inglês” (um químico, falecido quatro anos
depois, personagem importante sepultada naquele pequeno
cemitério).
Num primeiro momento olhei para aquelas fotos sem dar muita
importância, como se elas não tivessem nada a ver comigo, e nem
com a minha história. Depois, fui me interessando pelo relato de
minha prima ao retratar a presença do mesmo Barracão e do local
onde funcionava a Escola onde (quem sabe) a minha mãe tenha
aprendido tudo que a ajudou a ser a mulher que foi. A partir
desse momento passei a olhar para as mesmas fotos, pelas quais
tinha passado apressadamente, mas agora com outra visão, a de um
participante dessa mesma “viagem” em busca da reconstrução de
nossas origens.
Parece incrível, mas foi como se o cheiro da terra molhada e o
barulho dos carros de boi, de repente, fizessem parte do mesmo
cenário.
Parei por vários minutos diante da foto que mostrava um pedaço
de chão batido (como se ali já tivesse existido uma pequena
edificação), e a indicação de que a casa onde a minha mãe nasceu
ficava ali por perto. Não precisava mais de outra informação. O
simples fato de saber que foi ali por perto que a dona Anita
nasceu já fora suficiente para que uma saudade danada tomasse
conta de mim, e a vontade que tive foi de um dia também fazer
essa mesma viagem, que a minha prima fez, somente para beijar
aquele chão por onde um dia minha santa mãe, descalça, passeou.
Pra quem ainda tem em casa (como os meus filhos) uma santa viva,
aceite (antes que seja tarde) este conselho: aproveite esse
domingo para descalçá-la e carinhosamente beijar-lhe os pés.
Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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