|
Louco por um dia
Há muito tempo perdi a paixão pelo futebol. Não sei se isto é
bom ou ruim. Ainda gosto de assistir uma boa partida de futebol,
e que vença o que for melhor. Caso o jogo seja à noite, nem
sempre consigo ver o segundo tempo, durmo antes. Como não tenho
nenhuma paixão declarada, e sou admirador do bom futebol, sempre
me considero um torcedor vitorioso. Atualmente como admiro o São
Paulo (já fui Santos, Vasco, Palmeiras – risos), tenho sempre
chegado com folga aos títulos mais importantes. No entanto,
torço sempre contra dois Clubes (são os considerados fora da
minha predileção): um é o Flamengo, que me alegrou no último
domingo quando deixou escapar o vice-campeonato; o outro o
Corinthians que, agora vai participar junto com o CRB da
segundona.
Desnecessário dizer que essa minha atitude provoca nos
apaixonados um sentimento muito forte de revolta. É como se o
universo todo conspirasse contra esses dois e as chances deles
se destacarem em meio a esse universo de Clubes de minha
predileção ficassem sempre diminutas.
Neste último final de semana foi diferente. Acordei com essa
“torcida” interior totalmente desejosa de ver o Corinthians
rebaixado e em casa recebi o apoio de uma palmeirense (ainda
sufocada pelas gozações de quando o seu time foi, no passado,
também rebaixado), que é minha filha Inesinha. A minha indecisão
começou quando recebi para o café da manhã o meu filho Marnes.
Chegou uniformizado com a camisa de seu querido Corinthians
(oferecida pelo meu amigo Celso Amodeo), porque nos dias de
jogos ele sempre acha que vestir essa camisa pode dar sorte.
Devia, no entanto, desconfiar desse presente de um são-paulino
juramentado – risos. Seu semblante era triste. Estava assim como
que se preparando para uma última batalha, e já com cara de
perdedor. Evitei tocar no assunto e conversamos sobre
futilidades. Na saída, disse-me que ia para casa assistir o jogo
sozinho (já havia despedido a mulher e meu neto).
Filho, a partir daquele momento passei a torcer pelo seu time.
Desejei que o seu sofrimento no final fosse compensado com a
permanência de seu time na primeira divisão. Durante o jogo, a
Inesinha percebeu essa minha inclinação e deixou o quarto
desconfiada de que a minha torcida funcionaria como uma corrente
positiva pró-Corinthians. Principalmente durante aquela
seqüência de pênaltis desperdiçados (e enfim convertido) pelo
Goiás.
A minha conclusão, filho, é que ter paixões é uma coisa muito
saudável. Sem paixões a vida perde sentido. A minha estratégia
de torcer sempre pelo melhor é muito insossa. Ganhar sempre não
nos prepara para a vida. A vida é assim como uma batalha em que
num dia ganhamos e num outro perdemos. Confesso que a primeira
divisão sem o seu Corinthians vai ficar sem graça. Embora para
essa torcida de “loucos” pouco ou nada importa onde ou com quem
o Corinthians agora vai jogar. O que ela deseja mesmo é estar lá
para cantar com paixão – loucos por ti Corinthians.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|