ESQUINA CULTURAL

Louco de amor

Estava numa festa de bodas de prata de um casal amigo. Ambiente propício para refletir sobre a força e as características do amor. No meio de uma conversa sobre filhos e seus amores, uma outra amiga “disparou” uma pergunta para mim: “Marco, você acredita que alguém pode ser louco de amor?”. Sem refletir muito sobre um tema tão complexo, eu respondi da seguinte maneira: “não, minha amiga, isto é só loucura”.

O que desejei dizer para ela é que vislumbrava uma impossibilidade de existência pacífica dessas duas condições numa mesma relação — loucura e amor. A loucura determina um tipo de relação doentia, de posse, que abafa qualquer possibilidade de desenvolvimento do amor. O amor para surgir e se desenvolver numa relação a dois exige maturidade que, teoricamente, não combina com loucura. Até porque cultivar o amor implica em ter no pensamento e ação, o desejo do desenvolvimento da pessoa a quem se ama, e isto não é enxergado quando se vive apenas “uma loucura de amor”. É possível sim, encontrarmos relações onde coexistem paixão e loucura. E isto é coisa bem diferente. A paixão tem os seus encantos (quem ainda não viveu uma grande paixão talvez nem seja capaz de viver um grande amor), mas é um tipo de sentimento que pode ter rompantes de loucuras que não alimenta o amor.
 
Digo até, que a paixão (e não estou certamente dizendo nenhuma novidade) pode servir como início para um amor verdadeiro, mas ela é inconseqüente. O que sobressai na paixão é a possessividade, estar juntos sempre, em qualquer lugar e por qualquer motivo. A paixão não permite sonhar com o futuro (porque o futuro para a paixão será sempre o momento presente), por isso não contempla todas as necessidades do amor. Ainda assim é forte, às vezes duradoura, mas nunca tem o “tempo” do amor.

A pergunta feita pela minha amiga Hosana foi relacionada aos amores vividos pelos nossos filhos nesse tempo presente. Enxergava ela diferenças nas relações que vivíamos na nossa juventude, quando também tivemos rompantes de loucuras em muitos “amores” fracassados, mas conseguimos fazer florescer e fortificar nas nossas relações adultas um amor capaz de celebrar muitas bodas (o que para muitos, paradoxalmente, só será possível se seguirmos sendo capazes de cometer algumas loucuras).
 
Minha amiga, que pena que a nossa conversa começou com uma pergunta e terminou com uma simples resposta. Amor e paixão são loucuras que alimentam as nossas vidas. Loucura pode ser paixão sem amor. Loucura pode ser também amor sem paixão. Loucura é não ter tido uma grande paixão. Loucura é não permitir que uma boa paixão termine num grande amor. Loucura mesmo é não ter acreditado que ambos, amor e paixão, fazem parte da mesma loucura.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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