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Licor com carinho
Conversava com minha esposa
sobre as ocorrências do dia-a-dia, de uma família cheia de
novidades, quando ela aproveitou para fazer uma observação sobre
a minha forma aparentemente sisuda de receber as pessoas em meu
consultório. Contou-me que atendeu a filha de uma cliente minha
e no decorrer da consulta ela identificou por uma fotografia de
um quadro (a mesma que tenho em meu consultório) a minha ligação
afetiva como seu esposo. Então, contou para a Inês que sempre
vinha a meu consultório trazendo a sua mãe, mas fez um
comentário dizendo: “puxa, doutora, como o Dr. Marco é sério!
Ele não dá um sorriso para ninguém. No entanto, a minha mãe
adora-o assim mesmo”.
Confesso que não é a primeira
vez que recebo esse tipo de comentário, e até tenho me esforçado
para melhorar o meu comportamento diante de meus clientes, no
entanto, ainda não consegui evoluir totalmente. O curioso é que
os clientes mais idosos não percebem (e se percebem não revelam)
esse meu defeito. Posso até dizer que, por eles sou muito
querido e as demonstrações de apreço e mesmo de amor de vez em
quando são reveladas.
A última delas vou repartir
nessa prosa: tenho uma cliente de longo tempo que de vez em
quando me presenteia com uma garrafa de licor. A sua
especialidade é licor de jaboticaba (fruta cada dia mais rara).
Nas últimas consultas ela sempre trazia um pedido de desculpas
dizendo que nunca mais havia encontrado a fruta para fazer o
licor “tão esperado”. Na semana passada ela entrou para a
consulta toda sorridente, e trazendo um pacote na mão. Foi logo
dizendo: doutor, dessa vez o seu licor de jaboticaba está
chegando.
Em seguida, rindo, contou-me
como tinha conseguido as jaboticabas: estava indo de ônibus para
casa quando, ao parar num sinal, avistou um menino com um prato
de jaboticabas. Não pensou duas vezes e gritou para o motorista
dando ordem para parar. Todos no ônibus ficaram assustados sem
saber o que estava acontecendo. Ela então foi em direção a porta
e pediu ao motorista, atônito, que esperasse um pouco. Desceu
rapidamente e negociou com o menino o prato das jaboticabas,
voltando em seguida ao ônibus, onde encontrou o motorista agora
mais perplexo. Ela, então, explicou para ele: o senhor acaba de
fazer três pessoas felizes, eu, o menino que vendia frutas e o
meu médico. Em seguida sentou-se no mesmo lugar e seguiu a
viagem sob os olhares interrogativos dos outros passageiros.
Um sacrifício desses, realizado
com a finalidade de agradar um médico sisudo como eu, foi uma
das maiores provas de generosidade que recebi ultimamente. Por
isso, resolvi agradecer denominando com o meu afeto esse licor
de licor com carinho.
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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