ESQUINA CULTURAL
Um certo lago

Nessa semana, que ainda não passou, completei cinqüenta e cinco, bem vividos, anos de existência. Considero-me um pouco gasto ao atingir esse limite, pelo menos os meus joelhos já passaram dos oitenta e cinco há muito tempo, embora a cabeça ainda não tenha se acostumado a essa idéia do envelhecimento. Em casa, os filhos já começam a me tratar carinhosamente pelo título de "velho broco". Já não consigo dar passos tão largos como antigamente, e a prudência tem me ensinado a não fazer projetos de vida de longo prazo. Falo sempre para os meus amigos que os meus projetos, no máximo, devem ter a duração de dois anos. Isso não quer dizer que penso em morrer antes, continuo otimista com a vida e não tenho nenhuma pressa em abandoná-la. Amo a vida com a intensidade do amor que nutro pela minha família, e pensando nela (não na vida, e sim na família), nas suas responsabilidades, no seu orçamento, é que me agarro a essa disposição de continuar vivendo, embora sabendo que, no cálculo das probabilidades, o peso da idade é fator de risco isolado e preponderante.

Assim mesmo, me surpreendo de vez em quando pensando na morte, até por que quando era mais jovem a sentia mais distante e ela nem entrava em meus pensamentos. Morrer era coisa para os outros. Agora, ao projetar os meus sonhos e também a minha realidade, esse limite biológico, e único verdadeiramente real, já aparece em meu horizonte. Às vezes, brincando, e ao mesmo tempo falando sério, já manifestei até o desejo de (em sendo viável essa possibilidade) ser cremado (depois de, definitivamente, morto; que fique bem claro - risos) e ter as minhas cinzas espalhadas num lago situado defronte de minha casa de praia, onde passei os melhores momentos de minha vida.

Acredito que, se misturado com aquela terra, seguirei olhando e vigiando os acontecimentos familiares de várias gerações que me sucederão, permanecendo dessa forma "imortal". É como um desejo de não ter um local determinado onde os que me amaram possam sentir saudade e os que não consegui amar possam passar indiferentes. Uma vez depositado (ou espalhado como é o meu desejo) ali, prometo não ficar fixo num único local. Farei os mesmos caminhos de quando vivo, em direção ao mar nos movimentos das marés, e retornarei sempre à minha porta pelo menos duas vezes ao dia misturado a bilhões de outras moléculas, minhas companheiras de vida eterna. Terei mesmo a sensação de que seguirei sendo útil, emprestando algumas moléculas que constituíram o meu ser para ajudar nesse movimento de ir e vir. Para isso, não necessitarei nem utilizar as cansadas e sofridas moléculas, componentes das desgastadas cartilagens de meus joelhos.

Mas, por enquanto, como permaneço otimista, vou vivendo da ilusão que é compartilhada por muitos: o desejo de ver os filhos crescerem, depois chegarem os netos, assisti-los fazer a primeira comunhão, se possível vê-los completar quinze anos, esticando um pouco, participar do casamento de pelo menos um deles, e aí, se eles tiverem filhos, ter a chance de recomeçar o ciclo, mesmo que seja assistindo a tudo do lado de fora, dentro de um certo lago que fica em frente a minha casa de praia.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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