ESQUINA CULTURAL
LAÇOS DE SOLIDARIEDADE

Nesta crônica, descrevo um momento de paz em meio à guerra que se desenrola entre judeus e palestinos; e, num outro plano, abordo a repercussão de um gesto concreto de solidariedade humana. A cada ano, amplia-se o desejo de paz e são incentivadas ações de fraternidade e amor ao próximo.

Quando estive em Israel, foi inesquecível a visita que fiz à cidade de Belém, onde fica situada a Basílica da Natividade e a Gruta da Manjedoura. A cidade de Belém continua em poder dos palestinos e, há dois anos, uma notícia entristeceu os cristãos. A Igreja da Natividade, que é o símbolo da fé cristã, ficou sitiada durante cinco semanas por tropas israelenses, que procuravam terroristas palestinos ali refugiados. Chegou-se a temer que a Basílica fosse destruída nessa ação de guerra. No Natal, o fluxo de peregrinos foi restabelecido e milhares deles puderam assistir à missa do Galo, diante da "estrela" que, segundo a tradição, marca o lugar em que Jesus nasceu. Um sinal de paz!

Um outro fato dominou minhas recordações, motivado pelo recebimento do convite de formatura de uma faculdade de medicina do Rio de Janeiro. Quem o mandara? Facilmente localizei a remetente, pois tem um nome pouco comum, de origem irlandesa. Trata-se de uma história comovente, ocorrida há vinte anos. Nessa época, uma amiga e cliente estava voltando do hospital após penosa cirurgia. Durante o período de internação, fizera uma auto-análise de sua vida, do universo de suas inquietações, dos conflitos na convivência com o marido e com os quatro filhos.

No momento em que entrava na garagem de sua casa, observou uma garota pobremente vestida, sentada no meio-fio da calçada vizinha. Voltou para saber se ela estava necessitando de alguma coisa. Notou o semblante triste e as lágrimas que rolavam lentamente em sua face. A menina, órfã de pai e mãe, morava na casa de uma tia, que já criava cinco outras crianças. Era um peso a mais no modesto orçamento doméstico. Tomara um ônibus e ali saltara. O que poderia esperar da vida? A dona da casa compadeceu-se da situação da criança e imaginou que aquele encontro poderia ser uma mensagem divina e, não, 
simplesmente, uma obra do acaso. Entrou em contato com a família da garota.

Resolveu adotá-la. Educou-a com esmero. A família da benfeitora mudou-se para o Rio de Janeiro. Agora, vinte anos depois, o convite de formatura recebido é o testemunho de que aquela boa ação alcançou o objetivo maior. A "garota da calçada" vai colar grau em Medicina. Sem dúvida, uma belíssima página da vida. Um ato de solidariedade fez seres humanos realmente felizes.

Ao concluir este artigo assistia, horrorizado, cenas de milhares de vidas destruídas por ondas gigantescas. Instantaneamente, laços de solidariedade uniram boa parte do planeta.

José Medeiros é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.

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