ESQUINA CULTURAL

Beijando traiçoeiramente

Em plena Semana Santa abre-se um debate (fruto de mais um “evangelho” apócrifo desengavetado de ruínas) sobre a verdadeira personalidade de Judas. Aprendemos desde cedo que esse nome significa traição, embora que para a história se consumar alguém teria que viver esse papel de vilão. Por que Judas foi o escolhido, a minha modesta visão não encontra explicação. Poderia ser qualquer um dos apóstolos, mas justamente ele (Judas) foi determinado para viver esse papel de beijar traiçoeiramente Àquele com quem conviveu e aprendeu a respeitar como um verdadeiro Deus.
 
Mudar uma história que já está sendo contada por mais de dois mil anos apenas seria possível se fosse uma história da carochinha, mas essa, que relata a vida de um Deus que se fez homem, continuará a ser contada por todas as gerações que conseguirem sobreviver a essa viagem do planeta Terra, sempre do mesmo jeito (afirmação da Fé)
.
Penso que temos coisas mais importantes para discutir aproveitando a celebração dessa data, embora esse mote da traição de Judas possa ser também uma boa motivação. Quando falamos nesse beijo traiçoeiro sempre imaginamos um outro Judas, que nesse tempo moderno continua executando essa tarefa até com mais maestria. O nosso olhar está sempre dirigido para essa possibilidade do “outro” trair, e nos trair. Com certa facilidade visualizamos nos fatos acontecidos na vida real a figura de muitos Judas, que se materializa em determinadas pessoas conhecidas ou fictícias, mas nunca em nós mesmos.

Nesse momento, em que nos preparamos para, no sábado da Aleluia, exteriorizar todo o nosso escárnio e todo o nosso desprezo, através do gesto de malhação de um Judas feito de pano e enchimento falso, fiquei pensando que podia fazer algo diferente, propondo uma malhação do Judas que existe revelado ou mesmo potencial em cada um de nós. Pode ser uma malhação silenciosa, indolor, uma malhação refletida e meramente simbólica, mas que permita repassar pela nossa memória as vezes em que “beijamos traiçoeiramente” às nossas convicções, os nossos propósitos, os nossos compromissos e as nossas juras.

Depois, certamente, veremos que pouco importará julgar o verdadeiro comportamento de Judas diante da história, porque aprenderemos a valorizar o Judas da nossa história, que nenhum evangelho apócrifo oferecerá a chance de reescrevê-la diferentemente.


Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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