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A
jardineira
É curioso
como os encontros do dia-a-dia acrescentam significados à nossa
vida. É bem verdade que alguns negativamente. Algumas pessoas,
por mais evoluídos que sejamos, conseguem estragar o nosso dia,
quando não as enxergamos de longe e desviamos de caminho.
Existem pessoas assim mesmo, indesejáveis. A reflexão que faço,
sempre quando me defronto com essas situações, é a de me
perguntar se também não represento para determinadas pessoas
essa mesma sensação. Mais curioso ainda é que esse desconforto,
às vezes, se manifesta até mesmo quando não conhecemos
totalmente as pessoas com quem não simpatizamos. Da mesma
maneira que existe amor (simpatia) à primeira vista, existe
antipatia, antes mesmo de um primeiro encontro. São coisas da
natureza humana, aborrecidas, incompreensíveis, mas concretas.
O gostoso é que também o outro lado é muito verdadeiro. Tem
pessoas tão especiais que gostaríamos de encontrar todos os
dias. A cada encontro recebemos uma carga tão positiva que nos
permite sair irradiando para os outros a energia acumulada.
Semana passada encontrei uma dessas pessoas que fazem bem a
alma. Esperava a chegada do elevador em meu local de trabalho, e
eis que, ao abrir a porta, me deparo com a professora Valéria
Hora. Nos abraçamos carinhosamente, e eu pude lhe dizer mais ou
menos assim (se não disse tive vontade - risos): “Minha eterna
professora, o meu dia será certamente feliz. Encontrar uma
pessoa com a sua grandeza é certeza de calmaria e paz. A senhora
me inspira tudo de bom que posso imaginar, e ter sido um
aplicado aluno da senhora é, sem dúvidas, a marca mais positiva
de meu currículo. Com a senhora aprendi, além da anatomia
patológica, também a ciência do bem viver. A minha formação
cidadã e humana foi um pouco (muito) forjada nos seus
ensinamentos. Ter sido seu aluno me enche de orgulho”.
Ela parou para me escutar com a sua peculiar calma e atitude de
quem, de fato, escuta, e sorrindo me deu uma resposta adorável e
surpreendente: “Meu filho, eu não fui sua professora, eu fui sua
jardineira. Apenas reguei uma planta boa”.
Minha querida e estimada professora, a sua inteligência tem algo
assim de transcendental. Naquele instante a senhora regou mais
um pouco a sua “planta”. Saí dali pensando porque temos
encontros indesejáveis, e a conclusão que cheguei é que tenho
muito que crescer como uma planta que foi regada pela sua
sabedoria. Desde o nosso último encontro que não tenho desviado
do meu caminho para evitar pessoas indesejáveis, estou me
esforçando para acolhê-las com a sabedora da jardineira.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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