ESQUINA CULTURAL

Um jardim de esperança

Final de ano triste para a cardiologia brasileira, e em especial para a cardiologia alagoana. Prefiro não dizer que morreu uma das mais ilustres cardiologistas (que no momento respondia pela Presidência da Sociedade de Cardiologia - Regional de Alagoas), porque sei de suas convicções espirituais, e que para ela o que ocorreu foi apenas o encerramento de uma etapa da evolução (nesse caso de puro aperfeiçoamento).

No entanto, seus amigos, familiares, alunos e clientes, terão que conviver com a sua ausência, sentindo saudade de sua presença.

Perde a cardiologia a juventude científica de uma das mais abnegadas e estudiosas cardiologistas da atualidade alagoana, que escolheu como tema de investigação a doença que a vitimou. Vários trabalhos produzidos e publicados sobre Lúpus Eritematoso, inclusive um redundando em sua tese de mestrado.

Perde a Faculdade de Medicina da UNCISAL, uma jovem e dedicada professora cujo maior desejo era o de ensinar. No dia de seu sepultamento encontrei o Reitor da UNCISAL André Falcão, que me confidenciou estar feliz por ter ajudado a Miriam a realizar esse desejo de ser professora.

Perdem seus alunos, a presença e a orientação sempre valiosa da Miriam. Coordenadora da primeira Liga de Hipertensão fundada na UNCISAL, também exercia uma atividade docente intensa em toda a graduação. Trabalhou até os últimos instantes, foi uma guerreira.

Perdem seus paciente, especialmente os pertencentes ao Grupo de Portadores de Lúpus Eritematoso, aos quais se dedicava com afinco no sentido de desenvolver conhecimentos que pudessem ajudá-los a vencer a própria doença que a vitimou.

No pertinente e lúcido discurso de despedida, proferido pelo colega cardiologista Ricardo Santos, foi dito que ganhavam os anjos com a partida da Miriam. Sou muito pequeno para entender esses mistérios que certos colegas já entenderam, mas penso que os anjos poderiam esperar um pouco mais para ter essa alegria.

Quando me dirigia ao Parque das Flores, no dia de sua despedida, escutava numa Rádio de minha preferência a entrevista de um cidadão (não consegui saber o seu nome), mas que falava de coisas difíceis de entender. Na sua visão, que me pareceu atéia, ele citou o escritor argentino Borges que sugeria “viver sem esperança”, para não se frustrar das intempéries.

Ele precisava estar lá e assistir o sepultamento da Miriam. Havia tantas flores espalhadas pelo chão, que saí dali acreditando mesmo ter participado do nascimento de um jardim. Não se pavimenta com flores a desesperança.

Os leitores podem estranhar o fato de estar falando de morte, num momento em que devemos passar mensagens positivas. É que a passagem de Miriam pelo planeta Terra foi um evento tão grandioso, que deve ser comemorada como a mais radiosa mensagem de esperança do ano que termina. Feliz 2009.


Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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