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Dupla Interação
Entre as diversas interações que recebi, desde a publicação de minha última prosa, desejo repartir duas que me fizeram refletir bastante, a primeira foi assim:
"Olá, Dr. Marco Antônio,
É a primeira vez que leio a sua coluna, não sou muito de ler jornal, mas alguma coisa me chamou a atenção para lê-la (29/07/2004), que é clara, emocionante e com certeza muitos dos que a leram se identificaram com algum ponto. Sou filha e mãe de duas lindas filhas, e o que foi dito nessa coluna me alertou para o meu relacionamento no presente com minha mãe, e ao mesmo tempo me preparou para o futuro com minhas filhas.
Acredito que o trecho que sua filha Alana mais gosta é: 'Coisa que gosto é poder partir sem ter planos, melhor ainda é poder voltar quando quero...' Que bom que você de alguma forma 'aceitou' a escolha dela, e que ela é tão forte para assumir essa nova vida. Torço para que ela seja feliz e vencedora, que o seu espírito se enobreça de luz, pela forma como você encara a vida.
Ah! Ela não precisa ler a coluna, ela sabe e sente que a plataforma dela é ser amada por você".
A outra foi: "Querido amigo,
Toda vez que escuto histórias como a sua, fico muito temerosa: sou mãe de filho único e não estou livre dele decidir seguir a sua vida sem a nossa presença. Assim como ter muitos filhos você está sujeito a esse tipo de acontecimento, quem tem filho único também não escapa da sina de vê-lo partir para não se sentir sufocado. Meu filho está com 11 anos, já namora há três meses (todos comemorados com troca de presentinhos) e vejo um fio muito tênue a nos unir. Fio este muito chato como mandá-lo tomar banho, escovar os dentes antes de dormir, ter que ouvir que ele é um pré-aborrecente (Ou idadezinha chata essa?). Alana escolheu o próprio destino e, por pior que ele seja, jamais falará para vocês. Se ela optou por viver assim. Assim será sempre, e nunca irá externar suas dificuldades: seria como assumir as suas derrotas. Ela é bem produto de seu meio. Eu sei que é difícil para vocês, mas escrevo isso, para, quem sabe, receber de vocês um alento parecido com isso. Ninguém está livre: os com muitos filhos e os com filho único. Anime-se, beijos".
As duas mensagens me convenceram de que a minha dificuldade não reside no fato de ser pai de tantos. Corre o mesmo risco quem, simplesmente, assume ser pai e mãe, mesmo de um (filho) ou de duas (filhas), como nas duas situações. Desafio maior não é preparar o filho para a completa liberdade, mas assistir o momento em que ele decide partir para construir o seu destino escrevendo uma história diferente daquela que sonhamos ser a melhor para ele. Difícil é perceber até que ponto o que imaginamos como positivo para ele pode estar dentro do realizável, ou devemos, simplesmente, decidir olhar e apoiar o que ele entendeu como sendo o melhor para ele. Como abandonarmos de vez o paternalismo, deixando tudo por conta de uma decisão unilateral, muitas vezes de um jovem ainda em formação?
A pergunta que me faço sempre é se esse sentimento que experimentamos nesses momentos pode ser considerado como positivo e construtivo de uma relação saudável, e se ele é correspondido. Desejaria entrar no coração dos filhos para entender o que se passa lá dentro e saber qual a resposta que eles teriam para essa pergunta.
Feliz domingo dos pais para os que são pais de muitos e para os muitos pais que, embora sendo pais de poucos, vivem ou viverão a espera do "poder voltar, quando quero...".
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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