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Inesquecível
Há quatro anos escrevi uma prosa comentando o fato de ter
esquecido a data de aniversário de minha filha número seis.
Apesar de ser compreensível numa família de tantos filhos como a
minha, é fato imperdoável (embora ela tenha me perdoado).
Ontem, essa mesma filha que se prepara para no dia dez de agosto
partir para uma aventura de intercâmbio nos Estados Unidos, onde
deverá permanecer por um longo ano, atingiu a maioridade. Digo
que chegou nessa marca memorável dos 18 anos, que, diante das
leis do país, confere para ela essa possibilidade de ter
autonomia de decisão e poder assumir as responsabilidades
decorrentes de seus atos. No entanto, para ela essa idade chegou
muito tempo depois de sua maioridade real. Inesinha amadureceu
muito cedo. Já recebeu há muito a chave da casa, e deixamos de
questionar as suas poucas saídas, suas viagens, seus projetos,
porque aprendeu a se defender precocemente de algumas armadilhas
que a vida vai nos impondo.
Tenho comentado muitas vezes que ela tem um espírito vencedor
(bem-vindo o mesmo nome de sua mãe). É uma guerreira e sabe o
que quer. Tem uma chance enorme de realizar todos os sonhos (que
nem nos revelou totalmente). Não gosta de errar e nem de perder,
por isso a tenho preparado mais para o insucesso e para a
derrota. Quando a mãe diz que não tem nenhum receio de que ela
cometa equívocos nessa experiência de um ano fora de casa, eu
tenho sempre mostrado para ela que isso é possível e que estarei
sempre junto para ajudar a consertar algum desvio de trajetória.
Durante os Jogos Internos do Colégio Santa Madalena Sofia (onde
ela completa a sua formação esse ano) vivi um momento de extrema
felicidade, que me levou às lágrimas (nada incomum num velho
chorão). Estava em meu canto assistindo a cerimônia de abertura
quando o locutor oficial convidou a atleta que iria acender a
tocha olímpica. O nome escolhido foi de Inês Gomes. Foi muito
lindo ver a minha atleta receber esse destaque, de poder
representar a sua geração e também premiar o seu esforço como
uma abnegada e destemida jogadora de basquete.
Dias atrás, observei-a pintando algo nas costas de uma blusa.
Aproximei-me e li que estava escrito INESQUECÍVEL. Aproveitou o
próprio nome para definir toda a sua essência. Assim é você
minha filha, para quem tem a felicidade de tê-la por perto.
Agora, vou começar a preparar o meu coração para viver a sua
momentânea ausência.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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