ESQUINA CULTURAL

Além da indignação

Uma semana depois parece muito tempo para continuar falando em notícias “velhas”. É que o problema parece ser justamente esse, estamos diante de uma sucessão de barbáries que a mais importante será sempre a mais recente. Pode até ser que nesta quinta-feira já tenhamos um fato novo, uma violência nova e a nossa sensibilidade vai ficando desgastada, anestesiada.

Como deixar de falar nessa brutalidade recentemente ocorrida, circunstancialmente no Rio de Janeiro, pois poderia ter sido em Maceió e aquela inocente criança um filho nosso (apenas mais um detalhe da tragédia). Ainda não havia digerido uma outra violência (também recente) em que uma família, inclusive com uma criança da mesma idade, foi queimada viva dentro do próprio carro, e lá vem a desmedida violência vitimando de uma forma ainda mais brutal uma inocente e indefesa criança.

Diante de fatos como esse, geralmente por alguns dias, a sociedade organizada e os poderes constituídos ocupam a mídia com declarações de efeito sobre possíveis soluções. Senti nas declarações algo assim como: “não devemos tomar nenhuma atitude motivado pela indignação. Vamos esperar a poeira assentar e depois refletir como gente civilizada que tipo de contra-ofensiva pode, no futuro, evitar novas vítimas”. Ou, em outras palavras, pedir a Deus que nos livre de que a próxima vítima seja alguém bem próximo de nós.

Assistir a cena do sepultamento, sentir a tristeza dos pais e perceber o equívoco da irmã, também pequena, sentindo-se culpada por não ter ajudado a libertar o irmão do cinto de segurança, deu um tranco no coração que me fez pensar onde podemos ir além da indignação.

A racionalidade nos empurra para o irracional: “Olho por olho, dente por dente”. Os algozes deveriam ser também amarrados a fortes cintos de segurança e percorrer os mesmos quilômetros da via-crúcis do menor vitimado. Não importando nem se um ou dois deles são ainda considerados, pelas leis brasileiras, também menores de idade e “irresponsáveis” pelos atos cometidos. A irracionalidade acossada pelo racional continua nos empurrando no sentido de uma resposta violenta para coibir a violência. A irracionalidade exige mudanças nas leis brasileiras e pede prisão perpétua, e até pena de morte, para crimes desse tipo. A irracionalidade aflora como um clamor que vem das entranhas e tenta nos dizer: não basta mais apenas se indignar.

Mas, com o passar dos dias, a racionalidade vai ocupando o seu lugar, vai nos dizendo que nenhuma atitude – racional ou irracional – irá devolver a vida daquela criança e nem atenuará a dor e a tristeza daquela família.

E assim, a indignação vai sendo substituída pela tristeza, pela sensação de inoperância, pelo convencimento de que nada pode ser feito. E mesmo, Deus nos livre, a fria racionalidade parece nos empurrar para a irracional brutalidade de tornar-nos insensíveis a dramas dessa dimensão.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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