ESQUINA CULTURAL
Assim caminha a humanidade

Durante um curso que realizei no Rio de Janeiro – e já se passaram vinte anos – conheci um médico iraniano, natural de Teerã, que havia fugido com a família, do feroz regime religioso dos “aiatolás” que se estabelecera em seu país. Na década de 80, o Irã foi dominado por sacerdotes da religião muçulmana, que ali implantaram um governo de impiedoso radicalismo. Seu pai foi fuzilado por não concordar com as atrocidades cometidas pelo regime.
Em dois anos, no Brasil, o dr. Zakat adquiriu um bom conhecimento da língua portuguesa. Durante os plantões no hospital, contou-me detalhes da vida muçulmana, da cultura e da religião islâmica. Referiu-se ao ódio desses dirigentes iranianos aos chamados países ocidentais. Esses governantes pregavam abertamente a “guerra santa” contra os infiéis do Ocidente, considerados por eles legítimos representantes de satanás.
O terrorismo encontrou campo fértil nos países de religião islâmica. O presidente americano George Bush, com sua política agressiva que culminou com a invasão do Iraque, pôs lenha na fogueira, alimentando esse ódio milenar. As tragédias que se sucederam em todo o mundo fazem vítimas inocentes, pessoas que nada têm haver com os interesses desses conflitos.
Um brasileiro – bom mineiro que buscava uma vida melhor em Londres – foi vítima desse estado de coisas. Em nome da segurança, inverteu-se o sentido básico do direito: todos são supostamente terroristas até prova em contrário. Criou-se o império da suspeita; os estrangeiros passam a ser encarados como inimigos potenciais.
O dr. Zakat, atualmente naturalizado brasileiro, continua a acreditar que é possível – no futuro – um convívio mundial de paz, concórdia e solidariedade. Diz que não é o ódio que vence o ódio; é o amor que vence o ódio. Preocupa-se com o individualismo, a distância cada vez maior entre as pessoas. Mora no décimo andar de um edifício e não conhece a maioria dos vizinhos de seu apartamento.
Lembra uma crônica de Rubem Braga: “... que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em sua casa. Não nos conhecemos, mas vim partilhar de sua alegria. E o outro respondesse: Entre, vizinho e coma de meu pão e beba de meu vinho. Aqui, estamos todos entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas, o dom da vida, a amizade entre os humanos, o amor e a paz”.
E assim caminha a humanidade...

José Medeiros
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.

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