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Eu sou um homem de sorte
Sempre que me perguntam quantos filhos tenho e eu respondo que
são dez, vem em seguida outra pergunta: “de quantos
casamentos?”. O comum é ter os meus, os dela e os nossos, quando
a prole é extensa. Quando respondo que os meus (os nossos) foram
todos com a mesma mulher, alguns logo duvidam e acham que estou
de brincadeira, e os que acreditam, esboçam uma reação que é um
misto de crítica e compaixão de minha mulher. É como se o fato
de ter gerado tantos filhos seja um ato de irresponsabilidade.
Talvez até tenha sido, mas um ato irresponsavelmente
maravilhoso.
Dia 15 de setembro, festejamos em família 35 anos de casados. Na
verdade, computando os cinco anos de namoro e noivado, já vamos
com 40 anos de convivência. Conhecemo-nos durante o Curso de
medicina. Eu, além de estudante era jogador de futebol, e ela
além de estudante era professora de balé clássico.
O primeiro beijo trocado foi justamente na porta de trás do
Teatro Deodoro, depois de uma apresentação. Fui namorá-la com a
intenção de passar umas férias de meio de ano, e terminei, de
repente e quem sabe até para sempre, amarrado (quero dizer
envolvido) pela bela morena de grossas pernas.
Na celebração realizada pelos filhos e netos (noras, genros e a
Bubú), foi montado um vídeo que procurou contar um pouco de
nossa história. Há 35 anos entramos na Igreja com uma melodia
que dizia: “por onde for quero ser seu par”. Hoje, para nós,
essa frase tem um sentido ainda mais completo, porque temos
quase certeza de que esse desejo, de um ser o par (o que se
completa) do outro, tem chance de ser eterno. Digo “tem chance”,
porque temos construído a nossa relação nessa perspectiva, de
que devemos continuar nos conquistando todos os dias. Assim, a
certeza de que “por onde for quero ser seu par”, demanda o
compromisso de um seguir conquistando o outro, sem nunca ter a
certeza de que a conquista se exauriu.
A segunda parte do vídeo, montado pelos filhos, contemplou
vários momentos felizes que pudemos desfrutar na nossa vida em
família e a dois. A música de fundo continha essa frase forte
que costumo cantar com a alegria de meu coração: “eu sou um
homem de sorte”.
A minha sorte foi justamente ter encontrado uma mulher com a
dignidade e a fortaleza de Inês. Tudo que peço a Deus é que essa
minha sorte persista e permita fechar a minha história de vida,
ainda cantando: “por onde for quero ser seu par”.
Esse “por onde for” projeta o amor para além da vida, e esse
desejo de continuar ainda assim “sendo o seu par”, pode
significar a eternidade do amor.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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