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O homem feliz
Atualizando a menor história de
amor que foi escrita – um homem era apaixonado por uma mulher,
pediu-a em casamento e ela disse não, aí os dois foram felizes
para sempre –, podemos reescrevê-la dessa maneira: um homem e
uma mulher estavam casados e infelizes, resolveram se separar.
Aí ela perdeu peso, fez plástica, pintou os cabelos, voltou a
fazer exercícios, ficou mais bonita. Ele, enfim, pôde pescar,
jogar futebol aos sábados (ou mesmo em qualquer dia da semana) e
tomar cerveja com os amigos – assim os dois conseguiram
recuperar a felicidade, também para sempre.
Lembrei-me dessa história nesse
último final de semana, quando reencontrei um “velho” amigo
recém separado. Pela manhã, percebi quando ele passava pela
minha porta, sozinho, num incrementado bugre (novinho) e com o
som ligado mais alto que o habitual, parecia um homem feliz.
Minutos depois voltei a encontrá-lo na praia voltando de uma
longa caminhada, que tinha como objetivo diminuir o tamanho de
sua pronunciada barriga (seqüela de anos de casamento sem
nenhuma motivação para fazer exercícios físicos). Embora
extenuado pelo efeito do escaldante sol, seu rosto transparecia
felicidade.
Nesse mesmo dia, à tarde,
passei pela porta de sua casa, que estava totalmente aberta,
cheia de gente nova, onde se ouvia um som bastante animado.
Olhei de viés e notei que lá estava esse meu amigo, também
bastante animado (dançava solto), dando a nítida sensação de que
não estava nem aí para o que pudessem estar pensando dele (era
todo felicidade).
Aproveitei para comentar com a
minha filha Anita (que estava acompanhada de seu namorado) essa
situação. Ela, que está fazendo o caminho inverso do encontrado
pelo meu amigo para ser feliz (já que está procurando se amarrar
a um relacionamento mais duradouro), ficou braba com o meu
comentário.
Não sei se foi verdade, ou se o
relato dela foi apenas para mexer com a minha teoria, mas à
noitinha ela chegou me dizendo que havia passado novamente pela
porta do “homem feliz” e, acabada a festa, ele estava sozinho,
com uma cerveja em cima da mesa, o som ainda bem alto, mas havia
trocado a felicidade pelo choro. Quem sabe (penso eu), com
saudade de alguém que lhe dissesse: quando passar a cachaça
apague a luz, limpe os pés para não sujar a casa, feche as
portas, e tome um banho antes de vir para a cama seu safado.
Marco Mota /
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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