ESQUINA CULTURAL

¿Hasta cuando?

Semana passada estive participando do Congresso Venezuelano de Cardiologia. Junto com mais quatro colegas brasileiros, atendi a um honroso convite para ser um dos convidados internacionais, quando pude levar a minha experiência com um método de medir a pressão arterial denominado de MRPA, que ajudei a desenvolver no Brasil. Foi um grande Evento com mais de 1200 participantes.

Com o desaparecimento do vôo Varig que fazia direto São Paulo - Caracas, a viagem passou a ser uma aventura. Praticamente um dia inteiro de viagem para ir e outro para voltar, e apenas um dia em Caracas, trancado num hotel.

Com a queda de uma ponte no trajeto do aeroporto para o hotel levei duas horas enfrentando um trânsito intenso, e com isso aproveitei para conversar com o motorista do táxi. Iniciamos a conversa com uma pergunta que lhe fiz: se não havia outra opção para chegar ao hotel, fugindo do enorme congestionamento. Ele me respondeu que havia, mas era arriscado porque passava dentro das favelas e seria melhor não arriscar. A conversa foi ficando mais solta e resolvi então lhe perguntar pelo Presidente Hugo Chaves. De início ele não falou abertamente, mas quando foi se estabelecendo um clima de confiança traçou o perfil de um ditador, populista e acima de tudo corrupto. Tinha apoio de camadas populares que se beneficiavam de alguns programas sociais, e, em torno dele, se organizava um grupo de políticos ditos de “esquerda” mas que, em verdade, eram todos aproveitadores. Falou-me também de algo que era visível em todo o trajeto, a intensa propaganda que alimentava o poder estabelecido. Disse-me que, em matéria de enganar as pessoas ele, era campeão.

Falou-me que as eleições estavam próximas (três de dezembro), mas que nada mudaria porque ele seria reeleito por mais seis anos, e depois faria mudanças na Constituição do país para se manter, à semelhança de Fidel Castro, por muitos anos. A mudança só ocorreria um dia, se também as pessoas pobres começassem a perceber que estavam sendo enganadas, mas que isso duraria muitos anos até que pudesse acontecer.

Em seguida, perguntou-me com era a situação no Brasil, e, depois de refletir um pouco, respondi-lhe que não era muito diferente. Aliás, esse é um fenômeno político que está se repetindo em vários países do Continente Latino-Americano.

Ele (o motorista) então me interrompeu dizendo: “mas no Brasil tem uma diferença. Lá o senhor pode dizer o que pensa e aqui se disser morre”. Concordei com ele, mas fiquei pensando (ainda em “portunhol”), e comigo mesmo, – ¿Hasta cuando?.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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