ESQUINA CULTURAL
Haja saco

Tenho receio de que os meus poucos e fiéis leitores das quintas-feiras (inclusive o meu amigo Isaac) já estejam de saco cheio dos meus comentários sobre os acontecimentos políticos das últimas semanas. Tenho até outros assuntos dos quais gostaria de falar, mas na hora de escrever aparecem fatos novos que não me permitem fugir dessa palpitante realidade.

Na semana passada escrevi "dando nome aos bois", e nessa semana não tenho como deixar de falar que os "bois", em verdade, se alimentavam das "verduras" (verdinhas) que o Assessor do irmão do Genuíno (que está cada dia mais genérico) vendia em São Paulo, e levava o apurado em malas (vejam que estranha coincidência) para ser guardado no Ceará. Vislumbro apenas uma pequena diferença: os dólares que são mais valiosos eram levados "no saco" (haja cueca).

No sábado passado estive trabalhando em Santo André e, durante o almoço com um grupo de médicos local, recebi do Sérgio da Sankyo uma bela sugestão de tema para essa minha prosa. A historia é a seguinte, acrescida dos exageros do articulista: um bravo guerrilheiro, assassinado no duro período da Ditadura (com todo o meu respeito a todas as vítimas desse regime truculento), ressuscitou em pleno século XXI, ano 2005. Procurou, de imediato, uma atualização sobre a política brasileira, lendo o primeiro jornal que encontrou. Logo descobre que o Presidente da Republica é um ex-metalúrgico chamado Lula; que foi eleito Presidente apoiado por um partido de trabalhadores; que o companheiro de luta, José Genoino, é o atual presidente desse mesmo partido; e que, seu também companheiro, José Dirceu, era importante Ministro de Estado, chefiando a Casa Civil. Extasiado com tanta notícia boa ele, triunfalmente, celebra dizendo para si mesmo: "valeu a pena o meu sacrifício, aceitaria morrer de novo pela mesma causa".

Em seguida, descobre que estava lendo um jornal velho, do início do ano, e logo procura se atualizar correndo para a Banca e adquirindo um jornal do dia. Descobre que, depois de denúncias (inicialmente tidas como infundadas, porque oriundas de um deputado de direita, pouco confiável), havia caído o Ministro José Dirceu, e toda a cúpula do Partido dos Trabalhadores, acusada de envolvimento com lobistas e uso de dinheiro público para comprar votos de congressistas. De imediato, procura saber o que pensa o Presidente, e descobre que enquanto Brasília pegava fogo ele dançava quadrilha na Granja do Torto, e depois havia viajado a bordo de seu super-hiper-confortável e luxuoso avião para uma reunião do Grupo de países ricos, onde teria um encontro com o Bush.

Mas, a pior notícia ainda estava para ser recebida, porque o mesmo jornal dizia que, antes de embarcar, o Presidente Lula havia se encontrado com o Ex-Ministro Delfin Neto, para dele ouvir com atenção a admirável proposta que visa fortalecer a economia, denominada de "déficit nominal zero".

Essa notícia foi demais para o nosso recém ressuscitado guerrilheiro. Ele tomou um desgosto tão profundo com a constatação de que todo sacrifício fora inútil, que só não pediu para morrer de novo porque se sentiu alimentado pela convicção de que a tristeza e a decepção não podem matar a Esperança.

Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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