Por mais que a ciência insista em dizer que o centro de todas
as nossas emoções é o cérebro, sempre foi o coração o
escolhido para ser o receptor de nossas tristezas e de
nossas alegrias. De órgão nobre de nosso corpo, vejam só o
que fazemos com ele! Um inconseqüente como provam os
versos: "Pela porta aberta / de um coração descuidado/
entrou um amor em hora incerta/ que nunca deveria ter
entrado." Dono de grande autonomia: "Meu coração/
não sei por que/ bate feliz/ quando te vê." Capaz de ser
relativo, maleável, elástico: "Meu coração é do
tamanho do mundo." Sobrevive às frases: Você machucou,
feriu, despedaçou. Partiu em pedaços o meu coração. Resiste
às flechadas de Cupido e ainda admite que alguém lhe roube um
pedaço ou o leve inteiro, deixando um vazio dentro do peito.
Define a nossa personalidade, o nosso modo de agir, os nossos
propósitos.Coração malvado, coração mole, coração duro,
de coração aberto, é de coração! Pode ainda ser feito de
pedra, de ouro, de banana, de manteiga, de chumbo. E quando é
insustentável o momento: "Explode, coração de
vidro!"
O coração tem suas razões e não obedece a lei alguma.
Localizado no centro de nosso corpo, desencadeia metáforas:
coração da floresta, da cidade, do mundo, do problema,
agregando ainda a conotação de lugar onde se concentram as
coisas mais importantes. Pode aparecer em lugares inusitados.
Estou com o coração nas mãos ou vou embora, mas deixo o meu
coração. Cantado em prosa e verso, simboliza o amor e o
romantismo.É sede de força e sinônimo de juventude e
idealismo num coração de estudante.
Quanto mais se descobre sobre o cérebro e se indica em
que parte dele se realizam as diversas sensações, ainda assim
é o coração que leva a culpa. Vai além dos cinco sentidos e
faz uso do sexto: meu coração me avisou, meu coração não se
engana e é capaz de nos guiar na dúvida: segui meu coração.E
todas as experiências vividas, a liberdade perdida ou
conquistada morarão para sempre no coração do homem. Ele faz
o milagre de nos deixar vivos quando dizem que não o temos mais
e reafirma o prodígio em: "Há pessoas com nervos de aço,
sem sangue nas veias e sem coração." É o primeiro órgão
a se manifestar e quando pára, um indício de que a vida se
foi. Feito de músculo e força, com a finalidade primária de
bombear o sangue e tomar conta das comportas, fiscalizando o que
passa por seus átrios e ventrículos, é constantemente
esquecido nessa função em favor de outra mais
instigante.
Passamos a vida inteira cercando-o de cuidados para não
ser atingido pelos males que o amor, a mágoa e tantas outras
formas de sentir trazem e nos esquecemos dos fatores que
poderiam comprometê-lo de maneira irreversível.A vida sedentária,
a obesidade, o fumo, a poluição, a bebida, a alimentação, a
falta de prevenção, controle e tratamento. É que acostumado a
ser ouvido pelo lado filosófico da vida, ele não cria
muito alarde quando o mal é de origem física. O coração não
dói, dizem os médicos. Dói terrivelmente, dizem os
poetas.
Maria
Aparecida Costa Teoro Alves Ângelo