ESQUINA CULTURAL

Minha genética me condena?

Sabemos que muitas das doenças que acometem o coração e os vasos são dependentes de um agregado de fatores de risco. Esta relação, já devidamente comprovada por inúmeros estudos epidemiológicos desenvolvidos em todo o mundo, serve para orientar programas governamentais num esforço de reduzir o aparecimento de doenças, diminuir mortalidade e também as incapacidades temporárias e permanentes que representam um alto custo social.

Apesar do esforço desenvolvido por sucessivos governos, a redução de enfarte e derrame no Brasil está aquém do que vem sendo alcançado em países que possuem políticas mais conseqüentes. Morrer mais de derrame do que de enfarte é um sinalizador de subdesenvolvimento. O Brasil ainda detém essa marca. Com exceção do Estado de São Paulo, o restante do país ainda carrega essa pecha.
Isto demonstra que políticas públicas para o controle da hipertensão arterial têm fracassado no Brasil.

Saindo do campo populacional e trazendo esse mesmo problema para um indivíduo, sabemos que intervenções do tipo redução do sal adicionado aos alimentos, perda de peso, atividade física, diminuição do consumo de bebidas alcoólicas e aumento da ingestão de frutas verduras e legumes são efetivas para reduzir a pressão arterial. No entanto, além de ser bastante difícil na prática essa atitude de mudar hábitos de vida, em algumas pessoas que conseguem esse feito extraordinário a pressão continua elevada e surge a necessidade do uso de medicamentos anti-hipertensivos. Nesses casos, devemos levar em conta que a participação da carga genética, herança dos pais, desempenha um papel fundamental. Pais hipertensos, filhos candidatos naturais a serem também hipertensos.

A pergunta que fazemos é a seguinte: “Então, a minha genética me condena?” Como já tenho essa herança transferida naturalmente, de nada valerá o meu esforço em reestruturar os hábitos de vida?

Não é bem assim que devemos entender. A participação dos fatores de risco e da genética funcionam mais ou menos como cinqüenta por cento para cada lado. Então, caso tenha sinalizações genéticas sobre a possibilidade de me tornar no futuro hipertenso, cabe-me uma identificação precoce dos fatores de risco e um acompanhamento periódico e precoce da minha pressão arterial.

Nesse caso, o uso da Automedida da Pressão Arterial (AMPA), realizada com equipamentos digitais validados, pode auxiliar a detectar precocemente as primeiras alterações da pressão arterial, ajudando e apoiando o paciente e informando ao médico sobre o surgimento precoce da hipertensão.

A genética desfavorável, em algumas situações, condena, mas o desleixo, o desconhecimento dos valores da pressão e a falta de atitude diante da vida podem ser um mal ainda maior.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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