ESQUINA CULTURAL
Gato escaldado

Sou pior que gato escaldado, tenho pavor de água fria. Não é coisa nova essa minha preferência por banho quente, pegando fogo, até mesmo quando volto da praia em dia de verão. Os meus dois filhos menores, Lucca e Louise, têm um gosto diferente do meu, por isso, deixei de dar banho neles. Não conseguimos chegar a uma temperatura que agrade aos dois lados. Quando fica bom para mim, eles reclamam que está queimando, e, quando fica bom para eles, eu já estou tremendo de frio.

Pensei até em descrever esse fenômeno como mais um achaque da velhice, mas, num rebuscar da memória, pude constatar que é coisa antiga, desde o tempo em que tinha que esquentar água em fogão à lenha para misturar e quebrar a frieza. 

Quando ainda jovem (faz um bom tempo), descobri que a água quente poderia ser a responsável pela minha momentânea infertilidade (Inês não conseguia engravidar). Foi prescrito naquela oportunidade para mim um dos remédios mais cruéis que pude experimentar - tomar banho periodicamente no Broma -, numa tentativa de "acordar" os meus espermatozóides. Depois que a minha mulher engravidou, suspendi de imediato a prescrição do "amigo" e não parei mais com essa mania, nem quando descobri que água quente faz cair os cabelos - talvez por que tenha descoberto muito tarde - risos.

A maior tragédia que pode me acontecer é ficar sem energia no meio de um banho já todo ensaboado. Certa vez acordei e percebi que estava sem energia, esperei-a chegar e, como não aconteceu, resolvi ficar em casa durante uma manhã inteira (perdendo até o trabalho), esperando a coragem chegar para tomar banho. Como nem a energia e nem a vontade chegaram, nesse dia tomei o que se chama de "banho de gato", molhei o cabelo e fui à luta na parte da tarde.

Estou falando tudo isso para relatar uma dificuldade que tive num final de semana passado em Maragogi. Quando chego num quarto de qualquer hotel, olho logo se funciona o ar-condicionado (que desejo sempre bem frio) e o chuveiro de água quente (que desejo sempre pelando), adoro viver esse contraste. Apenas o primeiro estava funcionando, o segundo nada. Reclamei logo na entrada, e na hora do jantar, quando fui dormir, tive a informação de que o defeito já estava localizado, e que dormisse tranqüilo porque na manhã seguinte estaria tudo resolvido. Com essa esperança fui dormir (um pouco sujo, confesso), e na manhã seguinte, logo cedo, me preparei para, além da sujeira, tirar também o atraso do prazer, que é tomar banho quente com a conta de água e energia já paga previamente. Mas, para minha decepção, o concerto não havia sido feito e a água (parecia que de propósito) ainda estava mais esperta (como denominamos a água para lá de fria).

Dirijo esse relato ao setor hoteleiro como um sinal de alerta para evitar a fuga de turistas para outros estados. Pior do que um isolado gato escaldado é um turista revoltado e insatisfeito com o atendimento recebido. Diferente do gato que não fala, o turista sai por aí dizendo o nome do hotel e não volta nunca mais.
Obs.:escaldado, o gato avisa que vai levar um bom tempo para voltar.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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