ESQUINA CULTURAL
O gato que latia

No reino dos animais havia um gato muito esperto que devorava todos os ratinhos que aparecessem pelas redondezas. Até um dia em que apareceu, nesse mesmo reino, um valente cachorro que, por detestar gatos, o afastava de perto dos indefesos ratinhos com um simples latido. Os ratinhos então passaram a obedecer à seguinte orientação: só abandonavam as suas tocas quando ouviam o latido do cão (sinalizando-lhes que o gato estava distante) e, assim, viveram felizes por muito tempo. Quanto ao gato, pensavam eles, já devia ter morrido de fome ou trocado de comida.

Certo dia, depois de ouvirem o latido do cão, os ratinhos saíram, relaxados, de seus esconderijos e, de repente, foram surpreendidos pelo gato que aprendera a latir. De uma abocanhada rápida ele capturou um dos ratinhos e este, atônito com o acontecido, ainda tentou um último diálogo antes de ser devorado: "assim é covardia". O gato, prontamente, respondeu: "é, meu amigo rato, hoje em dia quem não falar pelo menos dois idiomas está perdido". E devorou o indefeso e perplexo ratinho.

Esta semana, recebi um honroso convite do Organizing Committee para participar do Scientif International Society of Hypertension, na qualidade de presidente de uma sessão de temas livres intitulada "Life Style Modifcation". Participando dessa mesma sessão estariam comigo, discutindo o assunto, uma holandesa, dois australianos, um francês, um iugoslavo e um inglês. Imediatamente, fui invadido por um sentimento agradável de orgulho, porque em meio a tantos colegas de renome em nosso país, esse convite veio parar em Maceió e, mais precisamente, em minhas mãos. Vivi uns poucos momentos de contentamento e de glória para, em seguida, cair na realidade e viver a "vergonha" de dizer não ao convite por não ter fluência na língua oficial do Evento: no caso, o inglês.

Por que contar essa história? Muitos podem pensar que foi pela vontade de falar no convite (e foi também, confesso), mas foi, principalmente, para chamar a atenção da juventude sobre a necessidade de se investir no aprendizado de outros idiomas. Alguém pode até falar que isso é besteira e citar o exemplo do Presidente da República, que não fala nem o Português. Entretanto, posso afirmar que, para ser Presidente da República, pode até nem ser tão importante o domínio de outro idioma; mas, para ser um profissional de qualquer outra área, especialmente a Medicina, saber falar fluentemente o inglês é uma necessidade.

Mas, voltando ao reino dos animais, apenas gostaria de saber a idade do bichano, porque desconfio de que gato velho tem dificuldade para aprender a latir.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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