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As galinhas agradecerão
Estava ouvindo pela CBN (sempre sintonizada no rádio de meu
carro), a entrevista do representante do Ministério Público
sobre a campanha a ser lançada denunciando o nepotismo. Fiquei
feliz em ver esse tema novamente ser lembrado e valorizado.
Sabemos que essa prática de beneficiar e abençoar parentes
prejudica o estado democrático. A premissa é aquela que todos
possuem iguais direitos de disputar cargos e funções,
independentemente do parente importante que tiver. Então aplaudo
essa iniciativa.
Como o trânsito estava lento, aproveitei para refletir sobre
essa questão, até porque em outros momentos já tive a
oportunidade de comentar que se algum dia tivesse a oportunidade
de exercer algum cargo público na minha área, ficaria muito
triste de não poder contar com a assessoria de meu irmão Murilo.
Assim, essa questão de nepotismo, como tudo na vida, tem também
o seu lado controverso.
Acho até que existem situações piores que estão correlacionadas
às escolhas para exercer tarefas públicas. Não desejo nem falar
das péssimas escolhas feitas por nós mesmos nos processos
eleitorais, que enfim temos de engolir porque fazem parte do
contexto democrático.
No entanto, duas situações também são de extrema gravidade e
quem sabe mereceriam também por parte do Ministério Público uma
outra campanha.
A primeira diz respeito às nomeações políticas, muitas vezes
para cargos estratégicos, até de primeiro escalão, de pessoas
notoriamente incompetentes. Esse é um tipo de “nepotismo”
disfarçado, porque o problema não consiste no sobrenome e nem
tampouco nos laços de sangue do indicado. Quando essas nomeações
acontecem, sabemos que os interesses escusos sempre fazem parte
do implícito.
A segunda questão está ligada aos predicados morais do indicado
para qualquer cargo público (muitas vezes a sua competência é
para cometer falcatruas). É comum ouvirmos nas rodas de amigos a
assertiva: “colocaram a raposa para tomar conta das galinhas”. E
o danado é que depois da gestão do “cidadão” a conta sempre
sobra para nós, simples contribuintes.
O ideal é ter dirigentes sérios, competentes e honestos
designados para funções importantes. Como essas qualificações
são raras numa única pessoa, pode ser melhor colocar um parente
para tomar conta do galinheiro do que entregá-lo a uma raposa. E
se o parente, além de honesto, for também competente, as
galinhas agradecerão.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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