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A galinha
dos ovos verdes
É público e notório que o sistema prisional brasileiro está
falido. A matemática que explica bem esse problema é a relação
entre a capacidade “hospedeira” do sistema e o grande número de
presos ocupantes das poucas vagas. Celas que suportariam com
dignidade apenas cinco presos muitas vezes suportam vinte.
Então, exercer a tarefa de prender, para a polícia e para a
justiça, não parece ser tarefa difícil.
Uma realidade indiscutível é que esses presos são também pessoas
pobres. Para chegarem a essa condição de presidiários podem ter
cometido crimes atrozes (portanto merecedores de duras penas) e,
em outros casos, a detenção ocorre por crimes em que a violação
às leis vigentes em nosso país não são faltas de maior gravidade
(o que explica penas de diferentes durações). O indivíduo que é
flagrado roubando galinhas para matar a fome de um monte de
filhos que deixou em casa chorando com a barriga vazia é
facilmente detido e condenado, porque foi pego com a prova
material do crime.
Essa semana fiquei intrigado porque o pedido de prisão do senhor
Marcos Valério (um dos ladrões mais notórios dos tempos
presentes, não o mais importante) foi negado por falta de
provas. E, vejam bem, o pedido de sua prisão foi de lógica
cautelar porque o relator da CPI achou que, com ele solto, teria
dificuldade de coletar as provas suficientes para solicitar a
sua prisão definitiva (a necessidade de flagrá-lo com o saco de
galinhas nas costas).
À noite, ouvi o Presidente da República absolver o senhor José
Dirceu (que já fora condenado pela sociedade e pelos próprios
colegas de Câmara), afirmando que aceitaria dividir com ele o
palanque, porque não existia contra ele nenhuma prova de crime,
já antecipando que no final ele seria considerado inocente. A
lógica é essa: para condenar faz-se necessário provar, para se
absolver basta esconder bem a prova.
A conclusão que chego é que o grande erro da CPI foi buscar
muitas provas. Quem rouba bilhões tem o cuidado de não deixar
nenhuma ”galhinha” com o bico de fora. Bastava centrar fogo na
busca de uma simples prova e, quem sabe, o caminho fosse
aprofundar a investigação das “galinhas dos ovos verdes”
encontradas na cueca do assessor parlamentar (que mesmo flagrado
com parte da prova material está solto e nem foi devidamente
investigado).
Marco Mota /
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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