Uma das figuras mais lúcidas do atual momento
político que está vivendo o meu país (na minha limitada visão) é
o Deputado Federal Fernando Gabeira. Em junho desse ano (quando
começava a crise do mensalão), ele escreveu uma crônica que, na
verdade, trata-se de um poema desabafo, com o título que dá
início a essa minha prosa. Para quem não está acompanhando de
perto o desenrolar da história, ele foi o primeiro aliado do
Governo Lula que percebeu a guinada e retirou publicamente o seu
apoio desde o famoso episódio da importação, pelo Brasil, de
pneus usados.
O cerne de sua crônica reside
numa comparação do período (por ele vivido) da Ditadura com o
Governo Lula. Relembra a tortura que sofreu por parte dos
militares, e, numa assombrosa comparação, chega a admitir que
seus algozes foram menos impiedosos, porque respeitavam as suas
idéias, e como estavam convencidos de que se tratava de um
"irrecuperável" caso de convicção ideológica tinham certeza de
que só a morte física seria capaz de "livrar" o país daquela
ameaça política.
Para ele, o Governo Lula foi
muito mais cruel ao comprar votos de alguns deputados para
aprovação de projetos, sabotando a própria democracia. O governo
Lula foi além. Desejou comprar a alma do Congresso Nacional, e
para os que não se venderam ou não obedeceram cegamente às
ordens de comando do "Grupo Duro do Poder" restou a sumária
expulsão.
Em sua bela crônica termina
dizendo: "a grande experiência eleitoral da esquerda
Latino-americana, admirada por uma Europa desiludida com Cuba e
Nicarágua, a grande novidade que verteu tintas, atraiu sábios,
produziu livros e seminários, vai acabar na delegacia como um
triste fato policial de roubo do dinheiro público e suborno de
parlamentares. Viu, Duda, que cenas finais melancólicas quando
um mercador tenta aplicar à complexidade da política a singeleza
do vendedor de sabonetes?".
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br